terça-feira, 29 de setembro de 2026

Vento da Sorte I e II

Vento da Sorte

I

O sol de quinta-feira recém despontava sobre a Avenida Estefano quando Marta estacionou a Biz em frente ao posto. O ar fresco da manhã em Itajaí trazia o cheiro forte de café passado e combustível. Ela tirou o capacete, ajeitou a franja no espelho retrovisor e caminhou até a conveniência com o passo de quem cumpre um ritual sagrado.

— Bom dia, Seu Tonho. O de sempre — disse ela, apoiando os braços no balcão de vidro.
O idoso atrás do caixa sorriu, revelando o dente de ouro no canto da boca, e alcançou a cartela sobre a bancada.

— Trinta anos de posto e dez de Trimania, Dona Marta. Hoje a senhora capricha na sorte ou pelo menos garante o churrasco de domingo.

— Se não vier a bolada, Seu Tonho, o importante é o Hospital Santo Antônio receber a parte deles. Minha mãe fez o tratamento do fêmur lá e não gastei um centavo do bolso. É minha obrigação retribuir.

Marta pagou em notas dobradas, guardou o título com cuidado na carteira e seguiu para o trabalho. Para uma trabalhadora autônoma de 42 anos, que equilibrava as contas de um pequeno salão de beleza no bairro São Vicente, aquele bilhete impresso não era ganância; era uma mistura de fé comunitária com um bilhete de esperança.

Chegou o domingo de manhã, o dia esperado do sorteio. O som da TV ecoava na sala pequena. A transmissão ao vivo do Vale do Itajaí preenchia o ambiente com o ritmo acelerado dos apresentadores. Marta acompanhava com a caneta azul em riste, conferindo os números na mesa de centro enquanto o café esfriava na xícara.

O primeiro prêmio saiu para Blumenau. O segundo, para Brusque. Marta suspirou ao ver que as dezenas da sua cartela não fecharam. Tudo bem, pensou, conformada enquanto ajeitava os óculos, o Santo Antônio agradece da mesma forma.

Foi quando anunciaram a chamada do terceiro prêmio: R$ 10.000,00 em dinheiro.
O globo girou, as bolinhas subiram pelo tubo e os números começaram a ser cantados um a um. Marta acompanhava, marcando com a caneta firme: mais um, mais outro... até que o último número bateu exatamente com o final da sua cartela.

— E o terceiro prêmio, de dez mil reais, vai para uma cartela só! Comprada no Posto da Estefano, em Itajaí! Nome da ganhadora: Marta Regina Santos!

Marta travou o movimento de levantar do sofá. A xícara quase escapou de sua mão. O nome piscou no rodapé da tela da TV. Dez mil reais.

Para quem vivia na corda bamba, contando moedas para fechar o mês no salão e com o secador de cabelo fazendo um barulho estranho há três semanas, R$ 10.000,00 tinham o peso de uma fortuna.

O celular sobre a mesa começou a vibrar antes mesmo dos apresentadores passarem para o quarto prêmio. Era a primeira chamada de uma lista de mensagens que não parariam mais ao longo do dia.

Marta encarou a tela do telefone e depois a cartela sobre a mesa. A sorte tinha batido à porta, mas ela sabia perfeitamente que o verdadeiro desafio não era ganhar o dinheiro, mas sim o que faria com ele assim que o depósito do prêmio caísse na conta.

Capítulo 2: O Barulho da Cidade e a Voz da Razão

A manhã de segunda-feira na Avenida Estefano parecia a mesma de sempre para quem passava de carro, mas para Marta o ar tinha um peso diferente. Ela abriu a porta de enrolar do salão de beleza no bairro São Vicente com a chave fazendo o ruído metálico habitual. O secador velho continuava lá, em cima do balcão, piscando uma faísca tímida toda vez que o botão era acionado no nível máximo. Só que agora, na conta do banco, a confirmação do depósito da Trimania já brilhava na tela do celular: R$ 10.000,00 líquidos.

O telefone não tinha parado desde o anúncio na TV. A notícia de que a "Marta do Salão" tinha levado o terceiro prêmio correu o bairro mais rápido do que boato em dia de chuva.
A primeira visita veio antes mesmo de o café passar.

— Ô, vizinha! Paguei o café da manhã só para comemorar! — gritou Valdir, o dono da oficina mecânica da esquina, entrando sem pedir licença com um pacote de pastel gorduroso e duas latas de refrigerante. — Vi seu nome na TV ontem! Olha, dez mil na mão é benção, mas dinheiro parado é poeira. Tenho um primo em Navegantes que tá montando uma revenda de seminovos. Se tu botar esses dez mil com ele hoje, até o fim do ano tu pega quinze. Garantido no fio do bigode!

Marta sorriu de canto de boca, agradecendo o pastel com a educação de quem lida com clientes há vinte anos, mas sem dar brecha.

— Calma, Valdir. O dinheiro nem esfriou na conta ainda.

Pouco depois das dez, foi a vez de Júlio, o filho mais novo de 19 anos, que apareceu de surpresa com a tela do celular aberta numa página de motos usadas.

— Mãe, pensa comigo: tu compra essa Biz nova pra ti, me passa a tua antiga e eu começo a fazer entrega de aplicativo à noite. Em seis meses eu te pago de volta cada centavo! É investimento na família!
Marta olhou para o filho, sentindo aquela pontada no peito que toda mãe conhece. A vontade de agradar era gigante, mas a lembrança dos meses em que cobriu o cheque especial para não sujar o nome falava mais alto. Se gastasse aquele valor em impulsos, favores e "oportunidades imperdíveis" de conhecidos, em trinta dias os dez mil teriam evaporado, e o secador do salão continuaria engasgando.

Às duas da tarde, aproveitando o intervalo entre uma escova e um corte, Marta caminhou três quadras até a agência do seu banco. A ideia era simples: pedir conselho sobre como guardar o dinheiro para render.

— Dona Marta, parabéns pelo prêmio! — disse o gerente, ajeitando o terno e arrastando a cadeira. — Para o seu perfil, o ideal é não deixar esse valor parado na conta corrente perdendo para a inflação. Tenho um produto excelente aqui: um Título de Capitalização com carência de 36 meses. A senhora guarda o dinheiro e ainda concorre a prêmios todo mês!

Marta franziu a testa. Tinha aprendido a ser desconfiada por necessidade.

— Mas se eu precisar tirar esse dinheiro daqui a seis meses para uma emergência no salão, eu pego os dez mil de volta?

— Bom... no título tem uma taxa de resgate antecipado, a senhora perde uma parte do rendimento e um pouco do capital no início... mas o foco é concorrer! — explicou ele, com um sorriso treinado.

Ela agradeceu, pegou o prospecto impresso e saiu da agência sem assinar nada. Na caminhada de volta pela calçada ensolarada de Itajaí, a sensação de impotência deu lugar a um estalo. Ela já tinha arriscado na sorte comprando a Trimania no posto — e tinha dado certo, além de ajudar o hospital. Mas agora que o dinheiro era real, ela não queria mais sorte, nem promessas de conhecidos, nem pegadinhas de banco. Ela queria certeza.

À noite, já com o salão fechado, Marta sentou-se à mesa da cozinha com um caderno espiral e uma caneta. Abriu o aplicativo do celular e começou a pesquisar por conta própria o que leu num artigo sobre finanças reais: Tesouro Direto.

Enquanto a cidade lá fora começava a desacelerar, Marta descobriu o Tesouro Selic. Sem taxa de administração abusiva, com garantia do próprio país e com a liquidez de quem podia resgatar o dinheiro se o salão precisasse. Pela primeira vez na vida, ela não estava jogando ou dependendo do destino; estava prestes a dar o seu próprio "giro da certeza".

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