quinta-feira, 27 de setembro de 2018

MinC investe R$ 245 milhões no fomento ao audiovisual




O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), abre nesta terça-feira (25) as inscrições para a Modalidade B do Edital de Fluxo Contínuo de Produção para Cinema. A Chamada Pública é voltada para seleção de projetos de produtoras brasileiras independentes de longas-metragens de ficção, documentário e animação, com destinação de R$ 55 milhões aos selecionados. Serão avaliados o diretor, o desempenho comercial e o histórico de entrega da produtora, a qualificação da distribuidora e o desempenho artístico. 

O Edital de Fluxo Contínuo de Produção para Cinema vai disponibilizar R$ 150 milhões em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), divididos em quatro Modalidades, sendo que cada projeto poderá ser inscrito em apenas uma delas. A Modalidade A, que já teve as inscrições encerradas no dia 18 de setembro, selecionou projetos de distribuidoras nacionais independentes, com destinação de R$ 55 milhões.

Na Modalidade C, as inscrições começam no dia 2 de outubro, com R$ 25 milhões reservados a projetos que tenham como proponente produtora brasileira independente sediada nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; na Região Sul e estados de Minas Gerais e Espírito Santo; e distribuidora brasileira independente sediada em qualquer região do país, desde que o projeto inscrito seja de produtora sediada nas regiões listadas acima.

Por fim, a Modalidade D destinará R$ 15 milhões à complementação de recursos de projetos que tenham como proponente produtora brasileira independente. As inscrições dessa etapa serão abertas em 9 de outubro. 

Com base na pontuação final obtida, nas quatro modalidades, cada projeto será enquadrado em uma faixa de pontuação que dará direito a acessar diferentes tetos de valores, conforme a tabela abaixo:


Acesse o edital e inscreva o seu projeto: http://www.brde.com.br/fsa/chamadas-publicas/producao/chamada-publica-brde-fsa-fluxo-continuo-producao-para-cinema-2018/

Sarau do Machado acontece hoje na Biblioteca Pública



A próxima edição do Sarau Machado Literário está marcada para esta quinta-feira (27), às 19h. O encontro será na Biblioteca Pública Machado de Assis (3ª Avenida, esquina com Rua 2500 – Centro) e contará com música e literatura à vontade a quem tiver interesse de participar.
A primeira atração é o escritor Alfonso Menegassi, autor do livro “Espadas do império brasileiro”. Na obra, Alfonso reuniu fotos e explicações sobre mais de 150 espadas utilizadas ao longo do Primeiro e Segundo Reinado Brasileiros. O livro foi lançado neste ano no Rio de Janeiro.
Outro visitante esperado no Sarau é Luiz Antônio Kappel, membro da Cadeira nº 27 da Academia de Letras de Balneário Camboriú e autor do livro “Memórias da Caserna”, onde conta um pouco mais sobre suas experiências no exército durante o período da Ditadura Militar. A música do Sarau ficará por conta do pianista Eduardo Carvalho.


domingo, 23 de setembro de 2018

Pesquisador encontra letra do hino nacional inédita escrita por Machado de Assis


Versos inéditos foram escritos em 1867 para celebrar aniversário de dom Pedro 2º


Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez



Texto: Maurício Meireles
FOLHA DE SÃO PAULO

Os velhos papéis, quando não são consumidos pelo fogo, às vezes acordam de seu sono para contar notícias do passado.

É  assim que se descobre algo novo de um nome antigo, sobre o qual já se julgava saber tudo, como Machado de Assis. 

Por exemplo, você provavelmente não sabe que o autor carioca, morto em 1908, escreveu uma letra do hino nacional em 1867 —e não poderia saber mesmo, porque os versos seguiam inéditos. Até hoje.

Essa letra acaba de ser descoberta, em um jornal antigo de Florianópolis, pelo pesquisador independente Felipe Rissato —o mesmo que, nos últimos anos, fez diversas descobertas sobre Machado de Assis e Euclydes da Cunha, incluindo fotos e textos desconhecidos dos autores.

“Das florestas em que habito/ Solto um canto varonil:/ Em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil”, diz o começo do hino, composto de sete estrofes em redondilhas maiores, ou seja, versos de sete sílabas poéticas. O trecho também é o refrão da música.

O Pedro mencionado é o imperador dom Pedro 2º. O bruxo do Cosme Velho compôs a letra para o aniversário de 42 anos do monarca, em 2 de dezembro daquele ano —o hino seria apresentado naquele dia no teatro da cidade de Desterro, antigo nome de Florianópolis.

“As pesquisas que tenho feito comprovam que há muitas coisas [de Machado] sabidamente perdidas, como peças dramáticas, e várias outras coisas cuja existência era desconhecida, como uma crônica anônima [que descobri]”, afirma Rissato.

Rissato sabia desde 2016 da existência desse hino, porque o jornal O Mercantil, guardado no acervo da Biblioteca Nacional, anunciava na véspera um “esplêndido espetáculo”. 

“Ao levantar o pano ver-se-á em riquíssimo dossel, e, em ponto natural, a efígie de S. M. o Imperador, tal qual este Adorado Monarca se apresenta por ocasião da fala do trono e será cantado pela companhia o Hino Nacional sendo a letra apropriada a este dia, pelo distinto escritor brasileiro o Snr. Machado d’Assis”,  dizia o anúncio.

Mas O Mercantil não publicou, nas edições seguintes, a transcrição da letra. A chave para o mistério estava num jornal catarinense chamado O Constitucional, em duas edições de 1867.

Em uma delas, a publicação avisa que o espetáculo do dia 2 foi adiado, porque dois músicos ficaram doentes. Em outra, de 11 de dezembro daquele ano, transcreve a letra —mas não cita o nome do autor dela.

“Enche o peito brasileiro/Doce luz, almo fervor,/ Ante o dia abençoado/ Do seu grande Imperador”, escreve Machado em outro trecho.

As publicações foram preservadas no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina.  No Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional só tem edições de O Constitucional a partir de 1868 —ou seja, um ano após a execução do hino de Machado de Assis.



 

Edição do jornal O Constitucional, de 1867, com hino nacional escrito por Machado de Assis



A descoberta de Rissato também se soma à história dos hinos imperiais brasileiros. O primeiro deles, “O Hino da Independência”, foi composto por dom Pedro 1º em 1822. Depois da abdicação do imperador em favor do filho, em 1831, surgiria mais um, escrito por Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva.

Houve mais um hino imperial, de data incerta e autor desconhecido —a referência mais antiga aos versos é uma partitura publicada em 1869, mas provavelmente ele foi escrito para a coroação de dom Pedro 2º, em 1841.

Assim, o hino de Machado se torna o quarto conhecido do império, antes da chegada do atual, já na República, escrito por Osório Duque Estrada.

Os versos foram compostos pelo autor de “Dom Casmurro” em uma época em que ele era principalmente poeta. Seu primeiro romance, “Ressurreição”, só viria em 1872. Já “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, só em 1881.

A produção poética de Machado é pouco conhecida, mas ele se dedicou a versos de ocasião —e não era a primeira homenagem que ele fazia à família imperial.
No aniversário de 30 anos de Pedro 2º, ele já havia composto um soneto para o monarca: “Nesse trono, Senhor, onde esculpido/ Tem a destra do Eterno um nome amado,/ Vês nascer este dia abrilhantado/ Sorrindo a ti, Monarca esclarecido!”.

Os versos permitem ver uma simpatia de Machado pela monarquia. Em 2015, descobriu-se, na fotografia clássica da missa campal pela abolição da escravatura, o rosto de Machado entre as figuras próximas à princesa Isabel —o que denota prestígio na corte.

Em 1867, mesmo ano em que escreveu o hino, o escritor seria nomeado para seu primeiro emprego ligado ao sistema monárquico, de assistente do diretor do Diário Oficial. Em 1873, o autor virou primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas —iniciando ali uma carreira de burocrata de toda a vida.

O achado se soma a outros realizados por Felipe Rissato nos últimos anos. O mais recente havia sido a descoberta do que agora é a última fotografia de Machado, feita meses antes de ele morrer.

Antes disso, ele já havia encontrado a única imagem do autor presidindo uma sessão na Academia Brasileira de Letras e uma crônica anônima dele sobre a morte da mãe.

Machado ficou órfão em 1849, aos nove anos, e, no texto, contava como corria atrás de borboletas azuis e colhia flores para dar a ela. “Eu sem ti, sem o perfume da flor que me fazia feliz e crente, chorarei sempre sem consolação; porque uma mãe perde-se uma vez e nunca mais se encontra”, escreveu na ocasião.

Agora, o desejo de Rissato é encontrar um poema de Machado intitulado “À S. M. a Imperatriz”, dedicado à imperatriz  Teresa Cristina e recitado nas festividades de 7 de setembro de 1889, a última comemoração da Independência antes de a República ser proclamada. Embora mencionado em publicações, o texto continua perdido.

sábado, 22 de setembro de 2018

Cultura Iorubá – A etnologia africana e afro-brasileira queimadas no Museu Nacional

Minha última publicação aqui neste blog foi sobre o Museu Nacional de Belas Artes, uma semana depois outro importante museu localizado no Rio de Janeiro sofreu um incêndio. Tivemos perdas irreparáveis e imensuráveis, e dentre elas uma importante coleção da cultura iorubá (o aspecto mais fartamente ilustrado deste acervo junto aos Bantus Jeje Mahi) que são parte de nossa história. Mais que os detalhes e estudos referentes a teologia, se foi um legado da sociologia, da linguística, da antropologia. Em um momento que lutamos pela promoção da igualdade racial e valorização da cultura afro, bem como políticas públicas voltadas à cultura afro, deixo aqui o registro do que as chamas transformaram em cinzas, levando um pedaço de nosso passado de extrema importância para compreender o presente e suas relações com o futuro que as próximas gerações não terão a oportunidade de conhecer e tecer suas leituras acerca desta riqueza cultural. 

Máscara Gélédé. Fim do séc. XIX ou início do XX.
Origem: Yorubá. Nigéria e Benim.
Gélédéé – sociedade secreta feminina dos povos de língua Yorubá.
Museu Nacional, Rio de Janeiro

A coleção de etnologia africana e afro-brasileira do Museu Nacional era constituída por aproximadamente 700 objetos. Abrangia tanto exemplares produzidos por povos de diferentes regiões do continente africano quanto testemunhos das manifestações culturais dos descendentes dos povos africanos no Brasil. O núcleo de objetos africanos foi majoritariamente constituído entre 1810 e 1940, remetendo em sua origem às coleções das famílias reais portuguesa e brasileira, posteriormente enriquecidas por outros legados, compras e transferências. A coleção afro-brasileira, por sua vez, foi formada entre 1880 e 1950, a partir de um núcleo de objetos transferidos dos depósitos das forças policiais locais (responsáveis por confiscá-los, quando a prática do candomblé era proibida no Rio de Janeiro), à qual se somou a importante coleção de Heloísa Alberto Torres, constituída por itens adquiridos junto aos mais importantes terreiros de candomblé do Recôncavo Baiano ao longo da década de 1940.
O núcleo de etnologia africana abarcava, na maior parte, peças produzidas no século XIX pelos povos africanos da costa ocidental, englobando tanto etnias que não tiveram contato com o Brasil quanto outras historicamente relacionadas à diáspora africana nesse país. Incluía artefatos de uso cotidiano (adereços e trançados), objetos rituais (máscaras e estatuetas), instrumentos musicais (flautas, chocalhos, tambores, lamelofones), armas de caça e guerra, etc., ademais de peças que se destacavam pelo valor histórico ou pelo contexto em que foram adquiridas — como o conjunto de presentes ofertados ao príncipe-regente Dom João VI pelo rei Adandozan, do antigo Reino do Daomé (atual Benim), entre 1810 e 1811, que formou parte da coleção inaugural do Museu Nacional. A peça central do conjunto era o trono de Daomé, datado provavelmente da passagem do século XVIIIpara o XIX, uma réplica do assento real de Kpengla, avô de Adandozan. Completavam o conjunto de presentes uma bandeira de guerra de Daomé (mostrando as vitórias do rei Adandozan nas guerras contra seus inimigos), o par de sandálias reais, bolsas de coro, uma bengala de passeio, abanos reais e uma placa de tabaco.
Ainda no contexto de artefatos de origem africana, o museu conservava máscaras rituais de sociedades secretas dos Iorubás e Ecóis, exemplares da cestaria de Angola e Madagascar, bastões cerimoniais dos Côkwe, objetos musicais adquiridos junto ao rei de Uganda, estatuetas religiosas antropomorfas e zoomorfas, exemplares de alaka (tecidos africanos feitos em tear e importados da costa ocidental para o Brasil). Destaca-se, por fim, o conjunto doado ao Museu Nacional por Celenia Pires Ferreira, missionária da Igreja Congregacional da cidade de Campina Grande, em 1936. A coleção era composta por objetos de uso doméstico e ritual, coletados pela missionária durante sua estadia no Planalto Central de Angola entre 1929 e 1935.
O núcleo de etnologia afro-brasileira documentava hábitos, crenças e técnicas de produção dos descendentes dos povos africanos no Brasil, bem como o histórico de violência da escravidão, a repressão religiosa e as formas de organização social das comunidades negras no período pós-abolição. A religiosidade afro-brasileira era o aspecto mais fartamente ilustrado no acervo. Grande parte dos objetos religiosos encontravam-se originalmente nos espaços conhecidos como zungus ou terreiros de candomblé, locais de culto dos inquices (Bantus)orixás (Iorubás) voduns (Jeje Mahi). Tais templos eram constantemente invadidos e tinham seus objetos confiscados e levados para os depósitos da polícia, como provas materiais da prática de rituais então proibidos. Por iniciativa do ex-diretor do museu, Ladislau Neto, esses objetos passaram a ser transferidos para a instituição, após o reconhecimento da importância histórica, sociológica e etnológica de tal acervo.
Um segundo importante conjunto de objetos no acervo de etnologia afro-abrasileira era proveniente da doação feita por Heloísa Alberto Torres, antropóloga e ex-diretora do Museu Nacional. Durante suas viagens à Bahia década de 1940, Heloísa adquiriu uma série de objetos nas principais casas de candomblé da região do Recôncavo, além de exemplares de artesanato, produção têxtil e da cultura popular, nomeadamente os orixás esculpidos em madeira por Afonso de Santa Isabel e as esculturas em cedro com pinturas a óleo adquiridas no Ateliê da Rua Taboão. O acervo ainda incluía peças feitas sob encomenda do próprio Museu Nacional, para figurarem na Sala de Etnografia Regional Brasileira, parte integrante da Exposição Permanente do Museu Nacional em 1949 (primeira mostra permanente de objetos e cultos afro-brasileiros, com o objetivo de apresentar as diferenças regionais da cultura nacional), como as bonecas de pano vestidas com trajes de orixás.


  Povo Iorubá. Máscara da sociedade secreta feminina Gelede, s.d.

 Trono do Reino do Daomé (século XVIII/XIX), ofertado a D. João VI pelo rei Adandozan

Boneca de pano com traje de orixá, feita para Exposição de Etnologia Regional de 1949

Povo Côkwe. Pente esculpido em madeira, s.d. 

Cultura afro-brasileira. Representações de Xangô e Bayani, s.d. 

      "Banquinho de igreja", assento para mulheres em casas de candomblé, s.d.