domingo, 9 de agosto de 2026

Existem resquícios do fascismo na atual sociedade? Podemos afirmar que este tempo é fascista?

Existem resquícios do fascismo na atual sociedade? Podemos afirmar que este tempo é fascista?

A resposta para ambas as perguntas exige separar a presença de traços e elementos de matriz fascista na sociedade contemporânea da classificação categórica do presente como um regime ou época inteiramente fascista.

1. Existem resquícios do fascismo na atual sociedade?

Sim, de maneira inequívoca. A historiografia, a sociologia e a ciência política contemporâneas (como nas obras de Umberto Eco, Hannah Arendt e Enzo Traverso) identificam a continuidade e a reemergência de elementos que sustentavam o fascismo histórico:

O "Ur-Fascismo" ou Fascismo Eterno: Como conceituou Umberto Eco, o fascismo não foi apenas um evento histórico delimitado nos anos 1920-1940, mas um conjunto de hábitos culturais e mentais. Traços como o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença (xenofobia e racismo), o apelo às classes médias frustradas e a obsessão com teorias da conspiração permanecem ativos na cultura política global.

Retórica do "Nós contra Eles" e Anti-intelectualismo: A simplificação do debate público, o ataque às instituições científicas e jornalísticas, e a construção de um "inimigo interno" ou "externo" indispensável para coesionar a massa são mecanismos retóricos idênticos aos do período entreguerras.

Neofascismo e Grupos Extremistas: Organizações explicitamente supremacistas, neonazistas e de extrema-direita armada operam ativamente em diversas partes do mundo, utilizando plataformas digitais para recrutamento, radicalização e difusão ideológica.

Culto ao Líder e Iliberalismo: A busca por figuras salvadoras que prometem resolver problemas complexos contornando ritos democráticos, freios institucionais e o devido processo legal reflete a permanência da atração pelo autoritarismo.

2. Podemos afirmar que este tempo é fascista?

Conceitualmente, não. Afirmar que a nossa época é "fascista" seria uma imprecisão teórica e histórica que enfraquece a própria capacidade de análise e combate aos abusos de poder.
Historicamente, o fascismo clássico dependia de condições estruturais específicas:

Um Estado totalitário de partido único que suprimia formalmente todas as liberdades civis, sindicatos e oposição política.

A mobilização de massas militarizada com controle estatal absoluto sobre a economia, a imprensa e a vida privada.

O uso aberto da violência institucionalizada e paramilitar como método diário de governança.

O momento atual é predominantemente caracterizado por historiadores e cientistas políticos sob outros conceitos:

Erosão Democrática ou "Democracia Iliberal": O risco contemporâneo raramente vem de um golpe militar clássico ou da instalação de uma ditadura fascista tradicional, mas sim da degradação interna das instituições democráticas por líderes eleitos pelo voto (processo frequentemente chamado de autocratização).

Pós-Fascismo ou Neopopulismo Autoritário: Termos empregados para descrever movimentos que utilizam a linguagem do ressentimento, o nacionalismo exacerbado e traços fascistas, mas operam dentro do jogo eleitoral e das estruturas do capitalismo digital moderno, sem necessariamente tentar criar um Estado totalitário nos moldes dos anos 1930.

Síntese

Não vivemos sob um regime fascista, mas vivemos em uma sociedade onde as sementes e os métodos do fascismo continuam disponíveis e operantes. O perigo contemporâneo não é a repetição idêntica do passado, mas a normalização gradual de comportamentos autoritários que erodem a convivência democrática por dentro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.