Este tempo possui resquícios do fascismo?
O fascismo, antes de ser um partido ou um governo, é um modo de organização do poder, do medo e da linguagem. Quando ele se entranha na sociedade, passa a funcionar "no piloto automático", manifestando-se nos seguintes aspectos do cotidiano sociopolítico:
1. O Punições Brutais e a "Cultura do Inimigo Interno"
Independente da matriz ideológica de quem governa, a sociedade contemporânea desenvolveu uma dependência estrutural do inimigo necessário.
A seletividade penal e policial: A arquitetura de segurança pública de muitos países (incluindo o Brasil) opera sob a lógica da eliminação ou contenção de determinados corpos e territórios periféricos. A ideia de que existem cidadãos "de classe A" (dignos de direitos) e "de classe B" (passíveis de exceção e violência estatal) é um traço fascista profundamente enraizado e naturalizado pela opinião pública.
O encarceramento em massa como política industrial: A resposta automática para contradições sociais complexas continua sendo a neutralização e o isolamento dos indivíduos, sem preocupação com a recuperação, espelhando a eugenia social e o higienismo.
2. A Linguagem do Cancelamento, da Deshumanização e do Maniqueísmo
O debate público contemporâneo foi pré-moldado pelas plataformas digitais para funcionar em lógica de tribunal e linchamento contínuo:
Cassação do debate racional: O adversário político ou moral raramente é visto como alguém que possui um ponto de vista divergente; ele é enquadrado como "maligno", "subhumano" ou uma "ameaça existencial" que precisa ser destruída ou silenciada.
O "Ur-Fascismo" da pureza moral: Tanto na extrema-direita quanto em certas dinâmicas autoritárias de grupos que se dizem progressistas, observa-se o patrulhamento ostensivo, o medo da divergência interna e a exigência de adesão irrestrita a dogmas, suprimindo o livre pensamento em nome de uma "causa maior".
3. A Burocracia Desumanizada e a Tecnologia de Controle Total
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao analisar a Modernidade e o Holocausto, demonstrou que a barbárie nazista só foi possível graças à eficiência burocrática e técnica que separou a ação humana de suas consequências morais.
A violência algorítmica e invisível: Hoje, decisões que afetam o acesso a crédito, moradia, empregos ou programas sociais são tomadas por sistemas automatizados que não oferecem espaço para a escuta humana. A burocracia estatal e corporativa opera frequentemente sob um frio "cumprimento de ordens" e metas métricas que ignoram a dignidade do indivíduo.
Vigilância contínua como norma: A aceitação passiva do rastreamento de dados, reconhecimento facial nas ruas e monitoramento de comportamentos criou um panóptico digital onde a privacidade passou a ser tratada como suspeita.
4. O Culto ao Produtivismo e a Descartabilidade Humana
A sociedade de consumo e o modelo econômico pré-moldaram o indivíduo para medir seu valor exclusivamente pela sua utilidade funcional:
Corporativismo e eugenia socioeconômica: Corpos doentes, idosos, neurodivergentes ou indivíduos que não produzem na velocidade exigida pelo mercado são marginalizados ou vistos como "peso" para o sistema.
A estetização da dor alheia: A banalização da miséria nas grandes cidades e o acostumar-se com a barbárie cotidiana (moradores de rua, tragédias ambientais, genocídios transmitidos ao vivo) revelam uma insensibilidade programada, onde a empatia é desligada para que a rotina continue sem interrupções.
5. O Desejo Cidadão por Soluções Simplistas e Figuras de Autoridade
Existe uma inclinação pedagógica e cultural, transmitida através das gerações, para a busca por "atalhos" e figuras salvadoras:
Fetiche da ordem e da militarização: A tendência a recorrer a métodos disciplinares, militarização de escolas ou intervenções de exceção diante de qualquer crise institucional demonstra que a cultura política de base ainda confia mais na força do que no pacto comunitário e na mediação democrática.
Anti-intelectualismo funcional: A desvalorização da dúvida, da filosofia, das ciências humanas e da reflexão em favor do "pragmatismo cego" e do "senso comum" simplificador.
Síntese
Responder se "este tempo é fascista" exige compreender que o fascismo não precisa de um ditador de farda no poder para estar ativo. Ele sobrevive como uma tecnologia social de dominação, embutida nos algoritmos, nas prisões, na linguagem de ódio do cotidiano, no descarte dos vulneráveis e na burocracia insensível.
Mesmo sob governos formalmente democráticos, a sociedade moderna opera sobre estruturas autoritárias pré-existentes. O desafio cívico, portanto, não é apenas vigiar quem ocupa o topo da pirâmide política, mas auditar e desarmar os comportamentos extremistas que já foram naturalizados na base das nossas relações sociais.
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