Uma das armadilhas mais frequentes no debate político contemporâneo é o anacronismo. Diante do ressurgimento de discursos agressivos, do ultranacionalismo e do ataque sistemático às instituições, surge com frequência o impulso de carimbar o presente com a etiqueta definitiva de "era fascista". No entanto, uma análise sociológica e histórica rigorosa exige separar a presença real de métodos, afetos e resquícios de matriz fascista na estrutura social da classificação categórica do nosso tempo como um regime fascista.
Compreender essa distinção não é um mero exercício semântico; é uma necessidade estratégica para a defesa do Estado de Direito.
I. A Permanência dos Resquícios: O Fascismo como Fenômeno Social
O fascismo histórico — corporificado no regime de Benito Mussolini na Itália e adaptado no hitlerismo alemão — ruiu institucionalmente em 1945. Contudo, suas bases sociológicas e psicológicas nunca foram inteiramente erradicadas. Como alertava o pensador Umberto Eco ao conceituar o Ur-Fascismo (ou "Fascismo Eterno"), o fascismo não foi apenas um sistema de governo delimitado no tempo, mas um conjunto de hábitos mentais e práticas culturais que podem reaparecer sob novas roupagens.
Na sociedade hiperconectada e moldada pelo capitalismo digital, esses resquícios manifestam-se de forma clara em pelo menos quatro eixos:
A Política do Inimigo Único e a Lógica Maniqueísta: A substituição do debate de ideias pela divisão estrita entre "o povo puro" e um "inimigo corrupto ou conspiratório" (sejam minorias, a imprensa, imigrantes ou o conhecimento científico).
O Anti-intelectualismo e o Ataque à Mediação: A rejeição do pensamento crítico e da complexidade em favor de soluções simplistas, acompanhada da deslegitimação das instituições de mediação — universidades, tribunais e o jornalismo profissional.
O Culto à Força e ao Autoritarismo Pedagógico: A apologia da violência — física ou verbal — como instrumento legítimo de resolução de conflitos sociais e a nostalgia por uma ordem social hierárquica e disciplinar.
O Ressentimento e a Xenofobia: A exploração política da angústia econômica e do medo da perda de status das classes médias, canalizada para o preconceito contra a alteridade.
Esses elementos mostram que o fascismo deixou de ser apenas um regime e passou a operar como um repertório de ação política disponível para atores demagógicos em momentos de crise.
II. O Diagnóstico do Presente: Por que Este Tempo Não É Estritamente Fascista?
Apesar da visibilidade desses resquícios, definir o século XXI como uma "época fascista" é conceitualmente impreciso e politicamente contraproducente.
A MORFOLOGIA DO PODER
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FASCISMO HISTÓRICO (SÉC. XX) AUTOCRATIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA (SÉC. XXI)
• Estado totalitário de partido único • Disputa e permanência via eleições
• Destruição formal da Constituição • Erosão gradual por dentro das leis
• Controle estatal da economia/imprensa • Captura de agências e desinformação
• Milícias armadas e terror oficial • Polarização afetiva e "democracia iliberal"
O fascismo clássico caracterizava-se pelo fechamento absoluto do espaço político, pela criação do Estado totalitário de partido único, pelo controle estatal direto da vida privada e pela mobilização militarizada das massas.
O perigo contemporâneo, como apontam cientistas políticos como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, é mais sutil. As democracias atuais raramente morrem por meio de golpes militares espetaculares ou pela instalação de ditaduras abertamente fascistas. Elas sofrem um processo de erosão gradual (autocratização) promovido por líderes eleitos pelo voto popular que utilizam as próprias ferramentas constitucionais para desidratar as garantias democráticas.
O momento presente é mais adequadamente diagnosticado como uma era de populismo autoritário, polarização afetiva e avanço do iliberalismo — um ambiente em que a carcaça da democracia formal permanece de pé, mas seu conteúdo substancial (tolerância, pluralismo e freios e contrapesos) é corroído.
Conclusão: A Vigilância e a Auditoria da Democracia
Concluir que não vivemos sob um regime fascista não é motivo para complacência; ao contrário, é um alerta sobre a complexidade da ameaça. O fascismo não precisa se repetir de forma idêntica com camisas-negras ou desfiles militares para causar danos irreparáveis ao tecido social.
O combate aos resquícios fascistas no presente exige ultrapassar a mera denúncia retórica. Exige o fortalecimento da educação cidadã, a regulação transparente dos fluxos de informação, o combate às desigualdades estruturais que alimentam o ressentimento e a intransigência jurídica contra qualquer tentativa de suprimir os Direitos Humanos.
A democracia não é um estado natural da sociedade, mas uma construção institucional contínua. Reconhecer os germes autoritários que operam no presente é o primeiro passo para garantir que a barbárie do passado continue contida nos livros de História.
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