Neuza - Capítulo 5: Os Tijolos Invisíveis de Neuza
Seis meses haviam se passado desde o dia em que Neuza e Lucas desenharam a planilha no papel de pão. A rotina dos investimentos já tinha virado um hábito silencioso e constante.
Era uma terça-feira chuvosa de tarde. Valtinho tinha saído para buscar peças na cidade vizinha, e Lucas aproveitou a folga da faculdade para tomar um café com a mãe. Neuza abriu o aplicativo do banco e apontou para o extrato do dia 15: lá estavam R$ 38,50 caindo na conta corrente sob a sigla Rendimento FII.
— Olha aqui, Lucas — disse Neuza, virando a tela para o filho. — O rendimento do Tesouro Selic que você me ensinou a guardar eu já entendi perfeitamente: é a minha garantia, o dinheiro emprestado ao governo que me dá os juros diários sem risco. Mas toda vez que entra esse 'aluguel' dos Fundos Imobiliários, eu me pego pensando na explicação que você me deu naquele dia...
Lucas sorriu, servindo-se de mais um pouco de café.
— A senhora lembra da metáfora do shopping, mãe?
— Como não lembrar? — respondeu Neuza, dando uma risada leve. — Você usou a açucareira e o paliteiro para me mostrar que eu não precisava ter milhões para ser dona de um pedaço de um prédio grande. Mas hoje, vendo o dinheiro cair na conta pela sexta vez seguida, parece que a ficha caiu de verdade.
Lucas encostou as costas na cadeira, orgulhoso de ver a evolução da mãe:
— É que na teoria parece um bicho de sete cabeças, mãe. Mas na prática o conceito dos Fundos Imobiliários (FIIs) é pura lógica do dia a dia. A senhora pegou aqueles R$ 5.000,00 e comprou várias cotas — aqueles 'palitinhos' de shopping centers, galpões de logística e prédios comerciais pelo Brasil. Quando as grandes empresas pagam o aluguel desses prédios no fim do mês, o administrador do fundo é obrigado por lei a repassar 95% do lucro para os cotistas.
— E sem eu precisar passar a raiva que a vizinha passa com o inquilino da casa dos fundos dela — completou Neuza, balançando a cabeça. — Sem vazamento no telhado, sem boleto de IPTU atrasado e sem ter que bater na porta de ninguém para cobrar. O administrador resolve a burocracia e o meu aluguel cai limpinho, sem nem descontar Imposto de Renda.
— Exatamente! — disse Lucas, batendo fraco na mesa. — E lembra do segundo segredo que planejamos na nossa planilha?
— Lembro sim! — respondeu Neuza com o olhar afiado. — Pegar esses trinta e poucos reais que caíram hoje e comprar mais uma cota do fundo.
— Isso mesmo. No mês que vem, a senhora não vai mais ter o mesmo número de cotas; vai ter uma a mais. Em vez de R$ 38,50, vai receber R$ 39,20. Depois R$ 40,00... É o efeito bola de neve. A senhora tá usando o próprio aluguel para comprar mais tijolos para a sua casa.
Neuza olhou para a tela do celular, sentindo a paz de quem tinha trocado a ilusão das apostas por um método sólido e seguro.
— No Tigrinho, meu filho, a gente tenta adivinhar o futuro na sorte e perde até o presente. Aqui na renda fixa e nos fundos, a gente constrói o futuro tijolo por tijolo, sabendo exatamente onde cada um tá pisando.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.