A discussão pública sobre os rumos da saúde em Santa Catarina costuma se perder em polarizações partidárias que pouco dialogam com a realidade de quem está na ponta. Seja sob gestões progressistas ou conservadoras, o cidadão do interior catarinense enfrenta o mesmo gargalo: a dificuldade de acesso a consultas com especialistas e exames de média complexidade. É nesse contexto que surge uma proposta objetiva, fundamentada em critérios técnicos e pragmáticos: dimensionar a rede pública de saúde para que nenhuma localidade do estado esteja a mais de 1h30 de distância de uma policlínica regional.
A fixação de um teto de tempo de percurso em vez de uma meta por número de habitantes redefine a lógica da gestão pública, priorizando a equidade territorial em um estado com marcantes assimetrias geográficas.
O Diagnóstico Territorial: A Geografia como Barreira
Santa Catarina é reconhecida nacionalmente por sua rede descentralizada de municípios. Dos 295 municípios catarinenses, a vasta maioria possui menos de 20 mil habitantes. Se por um lado a Atenção Primária à Saúde (os postos de saúde municipais) apresenta excelente capilaridade, por outro, a Atenção Especializada sofre de uma centralização histórica.
Regiões como o Extremo Oeste, o Planalto Serrano e o Alto Vale do Itajaí enfrentam malhas rodoviárias com trechos sinuosos, tráfego pesado de cargas e infraestrutura limitada. Na prática, a distância em quilômetros não reflete o desgaste da viagem. Para um morador de um município pequeno no interior, uma consulta médica em um grande centro pode significar acordar às 3 horas da manhã para entrar em uma van ambulatorial e retornar apenas à noite.
Adotar o limite de 1h30 de deslocamento transforma a logística da saúde em um compromisso de dignidade humana e eficiência operacional.
Fluxo de Atendimento:
ATENÇÃO PRIMÁRIA: Posto de Saúde Municipal (Prevenção e Triagem)
↓ (Até 1h30)
POLICLÍNICA REGIONAL: Média Complexidade / Exames (Consultas de Especialidades)
↓
HOSPITAL DE ALTA COMPLEXIDADE: Grandes Centros Urbanos (Cirurgias/UTI)
A Viabilidade Numérica: A Conta Fecha?
Em termos de extensão territorial, Santa Catarina possui cerca de 95.738 km². Se considerarmos uma velocidade média conservadora de 60 km/h no transporte rodoviário, um raio de 1h30 compreende uma distância percorrida de aproximadamente 90 km.
Historicamente, o estado divide-se administrativamente em 17 Regiões de Saúde. Ao distribuir estrategicamente policlínicas regionalizadas nessas macrorregiões, o teto de 1h30 é perfeitamente alcançável.
Região / Eixo | Desafio Logístico Principal | Solução com Policlínica Regionalizada
Extremo Oeste & Oeste | Grandes distâncias entre centros urbanos | Policlínicas de suporte em nós viários estratégicos (ex: São Miguel do Oeste, Chapecó, Xanxerê)
Planalto Serrano | Baixa densidade populacional e relevo acidentado | Unidade centralizada em Lages com suporte descentralizado no Planalto Norte
Alto Vale do Itajaí | Trafegabilidade reduzida em vias secundárias | Reforço do hub em Rio do Sul cobrindo os municípios do entorno
Litoral e Vales | Adensamento populacional e tráfego urbano | Manutenção de unidades nos polos (Joinville, Blumenau, Criciúma, Grande Florianópolis)
Os Desafios Sustentáveis: Escala e Fixação Médica
Criar a infraestrutura física para esse modelo é a parte mais simples da equação. O verdadeiro desafio de gestão reside em dois fatores vitais:
A Sinergia via Consórcios Intermunicipais: A gestão dessas unidades exige o fortalecimento dos Consórcios Intermunicipais de Saúde (CIS). Em vez de cada prefeitura tentar contratar isoladamente seus especialistas, o consórcio regionaliza o investimento, otimizando compras públicas e tabelas de pagamento.
A Fixação do Corpo Clínico: A escassez de especialistas dispostos a residir ou atuar no interior é um gargalo nacional. A sustentabilidade das policlínicas depende de planos de carreira atrativos, integração com programas de residência médica regionalizados e apoio tecnológico.
Telemedicina Integradora: A policlínica física não precisa absorver demandas que podem ser resolvidas remotamente. O uso da telessaúde para triagem e segunda opinião médica entre o clínico geral do município e o especialista da policlínica reduz viagens desnecessárias e foca o atendimento presencial onde ele é indispensável.
Conclusão
A proposta de fixar um teto de 1h30 de deslocamento para o acesso a policlínicas em Santa Catarina não é um debate ideológico, mas uma solução logística de gestão pública. Ela reconhece a geografia do estado e propõe uma rede descentralizada, eficiente e humanizada. Ao integrar consórcios intermunicipais, telessaúde e infraestrutura regionalizada, Santa Catarina pode estabelecer um padrão de referência nacional em regionalização da saúde.
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