A Quem Pertence a Voz do Refúgio? Um Estudo Histórico e Crítico Sobre a Autoria do Salmo 91
O Salmo 91 é um dos poemas mais emblemáticos da literatura bíblica, amplamente reconhecido por sua linguagem de proteção e confiança. Contudo, por trás de sua estrutura poética e do seu impacto devocional, reside uma questão que há séculos instiga teólogos, historiadores e exegetas: quem escreveu o Salmo 91?
Diferente de dezenas de outros salmos que trazem um título atribuindo sua autoria a figuras como Davi, Asafe ou os Filhos de Corá, o Salmo 91 surge no texto hebraico massorético como um escrito anônimo. Para compreender a autoria dessa obra, é necessário analisar o contraste entre as tradições religiosas antigas e as conclusões do método histórico-crítico moderno.
1. As Tradições Religiosas Antigas
A Tradição Judaica e a Atribuição Mosaica
Na tradição rabínica, registrada no Talmud (Baba Batra 14b–15a), existe uma regra hermenêutica clássica: quando um salmo não possui um título com o nome de um autor, ele deve ser atribuído ao último autor mencionado no salmo com título anterior.
Como o Salmo 90 é explicitamente encabeçado por "Oração de Moisés, homem de Deus", a exegese judaica tradicional atribui o Salmo 91 (juntamente com os Salmos 92 a 100) a Moisés. Defensores dessa perspectiva apontam elementos internos para sustentar a tese:
O uso de termos e imagens que remetem ao período do deserto e do Tabernáculo (como "peste", "praga" e "serpentes").
A similaridade teológica com partes do livro de Deuteronômio, onde Deus é retratado como o protetor de Israel durante a peregrinação no deserto.
A Tradição Grega e Latina: A Figura de Davi
Por outro lado, a tradição judaico-helenística preservada na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento realizada a partir do século III a.C.) adicionou um título ao poema: "Louvor de uma Ode de Davi". Essa escolha foi posteriormente mantida na Vulgata Latina de São Jerônimo.
A associação com o Rei Davi fundamenta-se na sua trajetória biográfica narrada nos livros de Samuel. A vida de Davi — marcada por guerras, fugas no deserto, ciladas impostas por Saul e batalhas contra inimigos — reflete perfeitamente as metáforas de militarismo, refúgio, armas e perigo iminente descritas no Salmo 91.
2. A Perspectiva do Método Histórico-Crítico
Para a pesquisa acadêmica secular e bíblica moderna, a busca por uma autoria individualizada (como Davi ou Moisés) é vista como um fenômeno de "pseudoepigrafia" ou atribuição tardia, onde a comunidade de fé posterior buscava conectar textos anônimos a grandes figuras do passado para conferir-lhes autoridade canônica.
Os estudiosos abordam o Salmo 91 através de três eixos principais:
A. Natureza Cúltica e Litúrgica
A maioria dos críticos literários classifica o Salmo 91 não como uma meditação pessoal e privada, mas como uma liturgia do Templo de Jerusalém.
O texto é estruturado na forma de um diálogo ritualístico com três vozes distintas:
1. O fiel ou orante (vs. 1–2): Expressa sua fé individual ("Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio...").
2. O sacerdote ou levita (vs. 3–13): Responde ao fiel declarando uma bênção sobre a sua vida e assegurando a proteção divina contra males físicos e espirituais ("Ele te cobrirá com as suas penas...").
3. O oráculo divino (vs. 14–16): O texto encerra com uma palavra dita na primeira pessoa pelo próprio Deus ("Porquanto me amou, também eu o livrarei..."), que provavelmente era proferida por um profeta cultual ou sacerdote durante o ritual.
Assim, do ponto de vista funcional, a "autoria" do salmo pertence à tradição sacerdotal de Israel, desenvolvida para ser recitada publicamente no santuário por ocasião de sacrifícios, votos ou pedidos de asilo.
B. Contexto Histórico e Datação
A datação do Salmo 91 divide os especialistas, mas há duas hipóteses dominantes:
Período Monárquico Pré-Exílico (Séculos X a VI a.C.): Argumenta-se que a presença de metáforas bélicas tradicionais e a centralidade da instituição do Templo apontam para uma composição durante o período em que a dinastia de Davi governava em Jerusalém.
Período Pós-Exílico (Séculos V a III a.C.): Outra vertente substancial argumenta que a linguagem do salmo — marcada por um forte tom de proteção contra demônios ("peste que anda na escuridão") e a mediação angélica ("aos seus anjos dará ordem") — reflete a teologia e a demonologia judaica desenvolvidas durante e após o Exílio na Babilônia.
C. A Inclusão no "Livro IV" do Saltério
A Bíblia Hebraica organiza os Salmos em cinco livros (espelhando a Torá). O Salmo 91 faz parte do Livro IV (Salmos 90 a 106). Essa coleção é estrategicamente posicionada após o Salmo 89, que lamenta a queda da monarquia davídica e a destruição de Jerusalém.
A inclusão do Salmo 91 no Livro IV responde à crise existencial do exílio: mesmo sem rei ou templo físico, a comunidade é lembrada de que o próprio Deus Altíssimo (Elyon) é o verdadeiro abrigo e refúgio duradouro de Israel.
Considerações Finais
Determinar a autoria exata do Salmo 91 é um exercício que exige separar a tradição devocional da análise historiográfica:
Na tradição, o salmo é visto através das lentes de Moisés (pela proximidade com o Salmo 90) ou de Davi (pela inclusão títular na Septuaginta).
Na academia, o texto é compreendido como um escrito anônimo, fruto da tradição litúrgica e sacerdotal do antigo Israel, concebido para servir como um oráculo de encorajamento para a comunidade em momentos de vulnerabilidade.
Em última análise, o anonimato original do Salmo 91 é precisamente o que garantiu sua universalidade. Ao não estar preso à biografia de um único indivíduo histórico, o texto permitiu que leitores ao longo de milênios adotassem suas palavras e encontrassem nele a sua própria voz.
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