sábado, 3 de outubro de 2026

Neuza - Capítulo 3: A Colheita dos Primeiros Frutos

Neuza - Capítulo 3: A Colheita dos Primeiros Frutos

O dia 15 chegou carregado de uma expectativa diferente. Não era a ansiedade tóxica do Tigrinho, em que o coração disparava a cada rodada com medo de perder o dinheiro do mês. Era a curiosidade tranquila de quem sabia que não havia nada em risco.

Assim que a luz do sol invadiu a janela da cozinha, Neuza abriu o aplicativo do banco com o café fumegando na xícara. O extrato exibia as notificações da quinzena:
Rendimento Tesouro Selic (10 dias úteis): R$ 142,30

Proventos Fundo Imobiliário (Dividendos): R$ 38,50
Rendimento Fundo Renda Fixa DI: R$ 11,20
Total de Lucro do Mês: R$ 192,00
Neuza ficou encarando aquele número. Cento e noventa e dois reais. O valor do principal, os R$ 25.000,00, continuava lá, intacto e protegido. Aqueles quase duzentos reais eram apenas o fruto que a árvore tinha dado enquanto ela continuava cuidando da casa.

Ela deu um sorriso discreto. Naquela mesma manhã, a conta de luz veio por debaixo da porta: R$ 168,40.

Em outros tempos, aquilo seria motivo para dor de cabeça, caçando moedas na gaveta de costura ou pedindo um adiantamento no bico de faxina. Dessa vez, com alguns toques na tela, Neuza resgatou apenas os R$ 192,00 de rendimento direto para a conta corrente, pagou o boleto da luz pelo código de barras e guardou os R$ 23,60 de troco.

Ao meio-dia, Valtinho entrou na cozinha arrastando os pés, com a cara amassada de quem tinha passado a manhã esquentando a cabeça na oficina.

— Vi o carteiro passando mais cedo — disse ele, abrindo a geladeira. — Deixou a conta de luz? Já tô até vendo... esse mês com o chuveiro dando choque vai vir uma facada. Vou ter que pegar o dinheiro do óleo para pagar.

Neuza continuou mexendo a panela de arroz, sem perder a calma.

— Já tá paga, Valtinho.
Ele parou com a garrafa de água na metade do caminho para a boca, franzindo a testa.

— Paga? Como assim paga? Tu tirou dinheiro de onde, Neuza?

— Consegui um trocado de um trabalho antigo que tava acumulado — disfarçou ela, servindo o prato do marido. — Não se preocupa com a luz este mês. O dinheiro deu e sobrou.

Valtinho olhou para o prato, depois para a esposa, visivelmente intrigado, mas o alívio de não ter que desembolsar quase duzentos reais falou mais alto. Ele sentou-se e começou a comer sem fazer mais perguntas.
Enquanto olhava o marido comer, Neuza colocou a mão sobre o bolso do avental. Pela primeira vez em trinta anos de casada, ela sentiu o sabor do que era ter uma reserva trabalhando por ela.

Mas à tarde, o celular vibrou com uma mensagem do filho mais novo, Lucas:
"Mãe, tô indo aí no sábado te visitar. Preciso atualizar o aplicativo do seu banco para a versão nova. Me espera que eu faço para você!"


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