domingo, 4 de outubro de 2026

A Incerta e Fascinante Autoria do Salmo 91: Entre Moisés e Davi

A Incerta e Fascinante Autoria do Salmo 91: Entre Moisés e Davi

O Salmo 91 é, sem dúvida, uma das passagens mais lidas, recitadas e memorizadas de todas as Escrituras Sagradas. Famoso por suas imagens poéticas de proteção divina — como o "esconderijo do Altíssimo" e a promessa de que "mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido" —, o texto oferece consolo e refúgio espiritual há milênios. No entanto, por trás de suas palavras de confiança, reside um enigma literário e histórico: afinal, quem escreveu o Salmo 91?

No manuscrito original em hebraico (o Texto Massorético), a resposta direta é: ninguém sabe ao certo. O poema é oficialmente anônimo, pois não possui um "cabeçalho" ou título que identifique seu autor, diferentemente de dezenas de outros salmos no Psalterium. Apesar disso, duas grandes tradições históricas e teológicas apontam para dois dos maiores nomes da história de Israel: Moisés e o Rei Davi.

1. A Tradição Judaica e a Atribuição a Moisés

A hipótese de que Moisés seria o autor do Salmo 91 encontra forte respaldo na tradição rabínica, registrada no Talmud (especificamente no tratado Baba Bathra).
Essa atribuição baseia-se em uma regra hermenêutica antiga de interpretação bíblica: quando um salmo não possui título explicativo de autoria, ele deve ser atribuído ao autor do último salmo que contém uma identificação explícita.

Ao olhar para o capítulo anterior, o Salmo 90, encontramos o título claro: "Oração de Moisés, homem de Deus". Seguindo o princípio rabínico, os Salmos 91 a 100 — que não possuem indicação de autoria no texto hebraico — seriam uma continuação do bloco literário composto por Moisés durante a peregrinação do povo de Israel pelo deserto.

Para os defensores desta visão, o contexto do deserto se encaixa perfeitamente nas metáforas do Salmo 91: a necessidade de abrigo contra o calor escaldante, a proteção contra "pestes" e perigos noturnos, e a busca por um refúgio seguro em meio a um ambiente hostil.

2. A Tradição Grega, Latina e a Conexão com Davi

Por outro lado, uma tradição igualmente antiga e influente atribui a autoria do poema ao Rei Davi.

Quando os sábios judeus traduziram as Escrituras para o grego entre os séculos III e II a.C. — na versão conhecida como Septuaginta (LXX) —, eles adicionaram títulos a vários salmos anônimos. No Salmo 91 (que na numeração da Septuaginta corresponde ao Salmo 90), foi acrescentada a inscrição: "Louvor de uma canção de Davi". Essa tradição foi posteriormente mantida por Jerônimo na Vulgata Latina, a Bíblia oficial da Igreja Ocidental por muitos séculos.

A associação com Davi não é apenas textual, mas também temático-biográfica:

Uma vida de perigos: Davi passou anos de sua vida fugindo do rei Saul, escondendo-se em cavernas e enfrentando exércitos inimigos.
 
Linguagem militar e de caça: Expressões como "laço do passarinheiro", "escudo", "broquel" e "flecha que voa de dia" ecoam a experiência de um guerreiro e fugitivo.
 
Estilo poético: A profundidade devocional e a confiança inabalável na libertação divina são marcas registradas dos Salmos comprovadamente davidicos.

Um Texto Sem Nome, Uma Mensagem Universal

A falta de uma assinatura definitiva no texto original do Salmo 91 talvez não seja um mero detalhe histórico, mas um elemento providencial.

Ao permanecer anônimo no cânone hebraico, o salmo ultrapassa as barreiras de um contexto histórico específico — seja a jornada de Moisés no deserto ou as guerras de Davi. O anonimato permite que a oração se torne atemporal. Assim, qualquer leitor, em qualquer época ou circunstância de perigo e incerteza, pode tomar o Salmo 91 para si e fazer do Altíssimo o seu próprio refúgio e fortaleza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.