Nos debates sobre o Oriente Médio, a pergunta mais comum é: se o conflito nasceu de projetos nacionais modernos (como o de 1897) e disputas territoriais, por que a retórica é quase inteiramente sagrada? A resposta reside na instrumentalização da religião: a transformação de uma fé transcendente em uma ferramenta de mobilização política e a conversão de figuras espirituais em títulos de propriedade jurídica.
1. O Mecanismo da Linguagem Religiosa
Se o "motor" do conflito é político — movido por soberania, controle de águas, fronteiras e segurança — a religião atua como o combustível emocional e o lubrificante ideológico.
A linguagem religiosa é utilizada porque possui um poder de mobilização que a burocracia estatal não tem. Ela transforma uma disputa por "quilômetros quadrados" em uma batalha entre o "Bem e o Mal", entre o "Sagrado e o Profano".
A Sacralização da Terra: Ao atribuir um valor divino ao solo, a política impede que o território seja negociável. O que é sagrado é absoluto; não se faz concessões sobre a "vontade de Deus".
A Mobilização de Massas: A retórica religiosa apela à identidade mais profunda do indivíduo, tornando o apoio a um projeto nacional um dever de fé, e não apenas uma escolha cívica.
2. Abraão como Título de Propriedade
A figura de Abraão é o exemplo máximo dessa instrumentalização. Originalmente o "Pai da Hospitalidade" e o homem da "Aliança de Fé", ele foi reconfigurado pela geopolítica moderna para servir como um procurador jurídico.
Nas mesas de negociação e nos discursos de ocupação, Abraão não é evocado por seus ensinamentos éticos, mas por sua genealogia. Ele tornou-se a "Escritura de Imóvel" que ambos os lados apresentam ao mundo:
O Lado Judeu: Utiliza a promessa feita a Abraão e Isaac para afirmar um direito ancestral e exclusivo sobre a terra, transformando a Bíblia em um código civil de posse.
O Lado Árabe: Utiliza a linhagem de Ismael e a presença contínua de séculos para afirmar que a bênção de Abraão nunca deixou de habitar aquele solo, reivindicando a primogenitura da presença.
3. A Substituição da Ética pela Funcionalidade
O perigo da instrumentalização é que ela preserva a casca da religião, mas esvazia o seu conteúdo. Ao usar Abraão como título de propriedade, ignora-se o Abraão da Ética:
A Tenda Aberta vs. Muros: O Abraão bíblico recebia o estranho; o Abraão instrumentalizado é usado para expulsar o vizinho.
A Paz de Gerar vs. Conflito de Fronteira: Abraão evitou a guerra com Ló cedendo a terra para manter a paz; o projeto político moderno exige a terra mesmo que isso custe a guerra eterna.
Conclusão: O Sequestro do Sagrado
A religião, quando instrumentalizada, deixa de ser uma ponte para o Divino e torna-se um muro entre os homens. O conflito no Oriente Médio não é religioso, mas é disfarçado de religião para que o erro de cálculo do projeto de 1897 (e dos nacionalismos que o seguiram) pareça um destino divinamente ordenado.
Desligar esse motor de instrumentalização exige a coragem de devolver Abraão ao altar da fé e retirar seu nome dos registros de propriedade política. Somente quando Abraão deixar de ser um "título de terra" é que seus filhos poderão voltar a ser, como prometido, estrelas que iluminam o mesmo céu.
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