O conflito no Oriente Médio é frequentemente lido como uma disputa de mapas, mas sua raiz profunda reside em um descompasso metafísico. O que testemunhamos hoje é o choque entre a Promessa da Aliança (Brit Bein HaBetarim), de caráter transcendental e vasto, e o Nacionalismo de Estado, de caráter pragmático e excludente, formalizado no projeto político de 1897.
1. A Promessa Original: A Geografia da Abundância
Nas Escrituras, a promessa feita a Abraão em Gênesis 15:18 não conhece as cercas do nacionalismo moderno. Ela define um horizonte: "Do Rio do Egito ao Grande Rio Eufrates".
Essa herança não foi desenhada para um único povo em exclusão do outro, mas para uma descendência que se bifurcou em duas grandes promessas:
Isaac (Linhagem Judaica): O herdeiro da continuidade messiânica e do assentamento na terra de Canaã.
Ismael (Linhagem Árabe): A quem Deus também prometeu, sob o olhar de Abraão, transformar em uma "grande nação" (Gênesis 17:20), multiplicando-o sobremaneira.
A herança bíblica original era, portanto, uma geografia de fraternidade, onde a existência de uma linhagem validava a promessa da outra.
2. O "Redesenho" de 1897: A Redução ao Estado-Nação
Quando o movimento político moderno surge em 1897, liderado por intelectuais imersos no pensamento europeu, ocorre uma mudança de paradigma. O projeto de 1897 operou uma "escolha de recorte":
Redução Territorial: Abandonou-se a escala bíblica do Eufrates para focar em uma unidade política viável e delimitada na Palestina (Eretz Israel). O que era um horizonte tornou-se um loteamento.
Redução de Identidade: O "Pai de Multidões" (Av Hamon Goyim) foi reinterpretado como o patrono de uma identidade nacional específica. O projeto de 1897 foi uma resposta defensiva ao antissemitismo, mas ao buscar a soberania em uma fração da promessa original, colidiu frontalmente com os filhos de Ismael que já habitavam aquele solo.
3. A Secularização do Sagrado: O Título de Propriedade
A sobreposição da política sobre a Escritura transformou o sagrado em algo puramente funcional. O que você identifica como "reescrever as escrituras" manifesta-se em três pontos críticos:
A Bíblia como Código Civil: O texto sagrado deixou de ser um guia de conduta espiritual para ser apresentado em mesas de negociação internacionais como um "título de terra" jurídico.
A Substituição da Fraternidade pela Competição: O texto bíblico narra que Isaac e Ismael enterraram o pai juntos e em paz (Gênesis 25:9). O projeto político de 1897, porém, substituiu o luto compartilhado pela disputa por soberania exclusiva.
A Escala Humana vs. O Mistério: Homens em Basileia tentaram resolver através de diplomacia e demografia o que, nas Escrituras, era tratado como um mistério de fé e providência.
O Grande Conflito de Narrativas e a Ironia Histórica
Atualmente, vivemos o "nó cego" dessa sobreposição. O Sionismo Religioso utiliza o projeto político de 1897 para tentar forçar a realização da promessa bíblica integral, enquanto o Nacionalismo Árabe utiliza sua própria linhagem ismaelita para reivindicar a primogenitura e a posse da terra.
A ironia histórica é profunda: o projeto de 1897 nasceu para "normalizar" o povo judeu, transformando-o em uma nação comum com um estado comum. Mas, ao escolher a terra de Abraão como sede desse projeto, ele garantiu que a política nunca fosse apenas política. Cada metro de fronteira tornou-se um eco de uma promessa milenar, e cada conflito, uma disputa familiar de escala cósmica.
Conclusão: A Solução de Dois Estados e a Herança
Diante dessa análise, a Solução de Dois Estados não deve ser vista como uma divisão da "herança original" — que permanece como uma verdade espiritual e biológica de dois povos irmãos. Ela é, na verdade, uma tentativa humana de gerir o erro de cálculo do projeto de 1897.
Dividir a terra em dois estados é um esforço para que a "descendência incontável" de Abraão não se autodestrua por causa de um mapa desenhado por homens. Não é uma violação do que foi escrito, mas um reconhecimento de que, se não podemos viver na hospitalidade radical de Abraão, devemos ao menos permitir que cada filho tenha seu próprio teto sob as mesmas estrelas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.