A política paroquial carrega uma patologia crônica: a incapacidade de enxergar além do próprio umbigo. Enquanto o tabuleiro global é redesenhado por crises sistêmicas, rupturas tecnológicas e nexos diplomáticos de altíssima complexidade — como as frágeis mediações no Oriente Médio ou os impasses na Europa Oriental —, o microcosmo municipal opera muitas vezes sob o signo da pequenez. É o fenômeno da miopia provinciana, uma condição em que figuras encasteladas no poder local tratam a grande estratégia com o descaso de quem confunde a aldeia com o centro do mundo.
O paradoxo dessa miopia atinge seu grau mais amargo na dinâmica da ingratidão política. Não é raro observar prefeitos, vereadores e lideranças de província que alcançam cargos executivos ou legislativos graças ao suporte direto, à articulação de base e ao fôlego intelectual fornecido por estrategistas de vanguarda. Contudo, ao cruzarem a soleira do gabinete, demonstram uma amnésia conveniente. Desdenham do capital intelectual que viabilizou suas vitórias, sabotam canais de inteligência de Estado e tratam o pensamento estratégico como um luxo descartável.
Conquistar uma cadeira em uma câmara municipal ou prefeitura exige disputa e suor, mas manter-se relevante exige envergadura. A liderança provinciana falha porque desconhece a espessura da realidade. Acredita que um mandato se sustenta apenas de discursos vazios, festas locais e marketing de ocasião, ignorando que a primeira crise sistêmica real é implacável com os desprovidos de visão estrutural.
Quem sabota o pensamento estratégico e desvaloriza a inteligência que lhe abriu caminhos comete um erro fatal: cava a própria irrelevância. No fim, a província não é apenas um espaço geográfico delimitado por fronteiras municipais; é, sobretudo, um estado de espírito. E, para o míope que recusa a ver o horizonte, o poder não passa de um breve intervalo antes do esquecimento.
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