segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O Capricho das Palavras: Como a Força "Interina" das Nações Unidas Ficou Eterna no Sul do Líbano

O Capricho das Palavras: Como a Força "Interina" das Nações Unidas Ficou Eterna no Sul do Líbano

Há uma ironia amarga na diplomacia internacional quando adjetivos temporários se tornam sentenças permanentes. O termo Interim — "interina", em português — foi encravado no coração da UNIFIL (Força Interina das Nações Unidas no Líbano) com a ingênua promessa de uma intervenção rápida. Criada em março de 1978 para conter a escalada militar no sul do Líbano, a missão completa décadas de existência sem previsão de término, convertendo-se em um dos retratos mais fiéis da complexidade do Oriente Médio e da fragilidade das resoluções internacionais.

O Estopim: A Operação Litani e o Caos de 1978

Para compreender a gênese da UNIFIL, é preciso regressar à década de 1970, quando o Líbano, imerso em uma sangrenta Guerra Civil, transformou-se em um mosaico de milícias e poderes paralelos. Sem a presença efetiva de um exército nacional forte no sul, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) passou a usar a região fronteiriça como base estratégica para o lançamento de foguetes e incursões armadas contra o norte de Israel.

O ponto de não retorno ocorreu em 11 de março de 1978. Militantes da OLP executaram o Massacre da Estrada Costeira nas proximidades de Tel Aviv, resultando na morte de 38 civis israelenses. A resposta de Tel Aviv foi devastadora e imediata: três dias depois, em 14 de março, as Forças de Defesa de Israel (FDI) desencadearam a Operação Litani. A invasão militar em grande escala ocupou virtualmente todo o território ao sul do Rio Litani, com o objetivo de varrer a infraestrutura da OLP da fronteira.

A Resposta da ONU: As Resoluções 425 e 426

Enquanto o exército israelense se estabelecia em solo libanês, o governo de Beirute recorreu de emergência ao Conselho de Segurança da ONU. O Líbano alegou não ter controle nem cumplicidade nos atos praticados pela OLP e denunciou a ocupação como uma violação direta de sua soberania territorial.

Sob o espectro de uma conflagração regional ainda mais ampla durante a Guerra Fria, o Conselho de Segurança agiu com rapidez atípica. Em 19 de março de 1978, aprovou as Resoluções 425 e 426, que moldaram o tripé operacional da UNIFIL:
 
Confirmar a retirada israelense: Monitorar passo a passo a saída das FDI do solo libanês.

Restaurar a paz e a segurança internacional: Estabelecer uma zona tampão neutra para cessar os confrontos transfronteiriços.

Restabelecer a autoridade estatal: Auxiliar o combalido governo libanês a estender novamente sua soberania administrativa e militar até a fronteira sul.

A Eternização do "Interino"

Projetada para ser uma força de transição de poucos meses — destinada apenas a manter o terreno até que as forças armadas libanesas pudessem reassumir o controle —, a UNIFIL viu suas premissas ruírem perante a realidade do terreno.

O colapso prolongado do Estado libanês impossibilitou a restauração da autoridade central. A retirada israelense não encerrou as hostilidades; ao contrário, abriu espaço para o surgimento de novos atores não estatais, culminando na consolidação do Hezbollah nas décadas seguintes. Invasões subsequentes, como a guerra de 1982 e a devastadora Guerra do Líbano em 2006 (que redefiniu e expandiu o mandato da missão através da Resolução 1701), só reforçaram a dependência da região desse escudo internacional.

A UNIFIL transformou-se, assim, em uma guardiã permanente de um equilíbrio frágil. O adjetivo "interina" tornou-se um monumento à distância que frequentemente separa as intenções diplomáticas no papel da complexa e duradoura realidade das guerras civis e territoriais.

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