A transferência de domicílio eleitoral de figuras tradicionais da política nacional para colégios eleitorais estratégicos sempre inaugura um debate incômodo, porém necessário, sobre o que os territórios de acolhida de fato ganham — ou sacrificam — nesse processo. Quando o nome em pauta é o de Carlos Bolsonaro, lançado à disputa pelo Senado Federal em Santa Catarina, o abismo entre a retórica da polarização e a crueza pragmática dos problemas locais torna-se o eixo central de qualquer reflexão séria sobre o futuro do estado.
Um mandato no Senado Federal brasileiro estende-se por oito anos. Trata-se de um ciclo temporal longo, suficiente para pavimentar rodovias, modernizar o complexo portuário catarinense, consolidar marcos regulatórios para a tecnologia e o agronegócio, ou reequilibrar o pacto federativo que historicamente penaliza a alta arrecadação tributária catarinense frente à voracidade fiscal da União. No entanto, a trajetória pública conhecida do candidato nunca orbitou a engenharia orçamentária, a articulação federativa técnica ou a gestão de entregas estruturais. Seu habitat político sempre foi a linha de frente da guerra cultural, a formulação de narrativas digitais e a confrontação ideológica exercida a partir dos gabinetes e das redes no Rio de Janeiro.
Para o eleitor conservador catarinense que enxerga na figura do parlamentar um símbolo de resistência e um alto-falante de peso contra o campo progressista em Brasília, a utilidade da candidatura é vista sob a ótica da força simbólica. Trata-se de consolidar o estado como o grande quartel-general da direita raiz no Sul do país. Contudo, sob uma ótica estritamente pragmática, surge o risco real de o mandato transformar-se em uma trincheira permanente de discursos federais distantes das agruras cotidianas do cidadão de Itajaí, Chapecó ou Florianópolis.
É justamente aí que reside o teste de maturidade para o eleitorado de Santa Catarina. Um estado dinâmico, cuja economia pulsa forte na indústria, na agroindústria e na inovação, não pode se dar ao luxo de tratar o Poder Legislativo federal como um mero palanque de desagravo ideológico perpétuo. Exigir compromissos públicos claros — como a pressão efetiva pela duplicação e manutenção de eixos rodoviários federais críticos (as entupidas BRs 470, 282 e 280) e a cobrança por contrapartidas fiscais proporcionais ao que o estado produz — deveria ser o piso de qualquer exigência democrática para um mandato de oito anos.
A política moderna não precisa escolher necessariamente entre a defesa de valores e a eficácia administrativa, mas o eleitor precisa recusar a pecha de que o simbolismo político substitua o dever elementar de representação territorial. Se o voto em figuras de projeção nacional servir apenas para blindar narrativas em Brasília enquanto os gargalos logísticos locais continuarem estrangulando o desenvolvimento catarinense, quem perderá a cadeira e o tempo histórico não será apenas um grupo político, mas o próprio futuro produtivo de Santa Catarina.
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