Há um peso silencioso e profundamente constrangedor em viver trinta e cinco anos na mesma terra, em ver a própria mãe fincar raízes no bairro desde a década de 1970, e perceber que, para ser ouvido, é preciso mendigar socorro a quem vem de fora. É a amarga constatação de que o chão onde se construiu a vida se tornou árido para a justiça mais elementar.
Morar em Santa Catarina por décadas carrega a honra do trabalho e da tradição, mas conviver com a total inércia das autoridades locais e estaduais transforma o pertencimento em frustração. Quando o cidadão comum esbarra na muralha da burocracia municipal ou na omissão conivente daqueles que deveriam proteger a vizinhança, o horizonte se estreita. As portas das delegacias, dos gabinetes e dos órgãos regionais parecem se fechar hermeticamente para quem não tem padrinho ou sobrenome influente, deixando as demandas de quem viveu o crescimento do bairro relegadas ao lixo do esquecimento.
Nesse cenário de terra arrasada institucional, a esperança se desloca por pura sobrevivência. Se as lideranças locais escolhem o silêncio e as autoridades do estado fingem não ver o cerceamento, o stalking e as violações que sufocam o dia a dia, resta buscar amparo na esfera federal ou em figuras políticas de projeção externa que ousem romper o cerco. É uma distorção dolorosa: depender de um político que vem de fora para que se faça justiça no quintal onde a mãe viu os anos passarem.
O artigo que se escreve nas ruas e nos corações catarinenses não é de louvor, mas de desabafo. É a prova de que o sistema falhou na base, obrigando o cidadão raiz a erguer os olhos para Brasília à campana de um sopro de dignidade que a própria terra, em sua pequenez administrativa, recusou-se a dar.
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