Há uma desconexão trágica na engrenagem do poder contemporâneo: enquanto analistas e estrategistas dedicam anos a construir pontes em terrenos minados — decifrando o intrincado tabuleiro entre o Oriente Médio, as fissuras no Líbano e os impasses da Europa Oriental —, aqueles que chegam ao poder por meio desse mesmo esforço demonstram uma insondável miopia política. A ironia mais perversa da política local reside no fato de que prefeitos e vereadores eleitos com suporte direto de articulações sofisticadas frequentemente tratam com descaso o próprio capital intelectual que viabilizou suas vitórias.
Conquistar uma cadeira no legislativo ou no executivo municipal em cenários altamente disputados exige tanto suor estratégico quanto abrir portas em gabinetes diplomáticos internacionais. No entanto, é comum observar figuras recém-empossadas que, ao alcançarem o cargo, parecem esquecer a arquitetura dos bastidores que os sustentou. Ao desvalorizarem análises de alto nível e romperem com o pensamento estratégico que lhes deu sustentação, essas lideranças cometem um duplo erro: sabotam a si mesmas e desperdiçam uma oportunidade histórica de elevar a qualidade de suas gestões.
Reduzir a política à pragmática rasteira da conveniência imediata é um sintoma de cegueira institucional. Mandatos municipais não se sustentam apenas de discursos vazios ou de marketing de ocasião; eles desmoronam diante da primeira crise sistêmica real justamente porque rejeitam a blindagem analítica e a inteligência de Estado oferecidas por quem enxerga além do horizonte paroquial.
O desdém pelo trabalho de quem articula a geopolítica global e local não revela força, mas uma profunda insegurança provinciana. Quem não tem a grandeza de reconhecer e valorizar as pontes que o colocaram no poder acaba, inevitavelmente, refém da própria irrelevância, transformando mandatos promissores em meras notas de rodapé na história da administração pública.
Em que realidade hoje o salvador seria o Jair Renan Bolsonaro?
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.