O Chimarrão Amargo da Memória em Curitibanos
O chimarrão fumegava entre as mãos enrugadas de Dona Helena, o verde intenso da erva contrastando com a porcelana branca da cuia. Edgar, sentado na varanda da pequena casa em Curitibanos, sentia o calor reconfortante da bebida enquanto ouvia o relato melancólico daquela descendente de posseiros. A casa, outrora parte de uma gleba extensa, agora se resumia a um pequeno terreno cercado por plantações de soja que se estendiam até o horizonte.
"Meu avô contava," disse Dona Helena, a voz embargada pela lembrança, "que aqui tudo era nosso. A mata dava o sustento, a erva-mate era colhida com respeito, só o necessário. Aí chegaram eles, com os papéis do governo, dizendo que a terra era da ferrovia. Derrubaram cerca, queimaram casas... A gente viu tudo ir embora."
Ela sorveu um gole do chimarrão, o olhar perdido nas lembranças. "A erva-mate... para nós, sempre foi mais que uma bebida. Era um costume dos nossos antepassados, dos índios que já estavam aqui. A gente aprendeu com eles a preparar, a tomar junto, em roda. Era um símbolo de união, de partilha."
Dona Helena fitou Edgar, a tristeza estampada no rosto. "Mas para os americanos da ferrovia e da madeireira, a erva-mate e as nossas araucárias eram só mercadoria, 'ouro verde' para levar embora. Eles não viam a nossa ligação com a terra, com a mata. Só viam o lucro."
A conversa fluiu, inevitavelmente, para a Guerra do Contestado. Dona Helena recordava as histórias de seus pais sobre a violência, a perseguição e o sofrimento daquela época. "A gente era chamado de 'fanático', de gente ignorante que não queria o progresso. Mas o progresso deles era a nossa miséria, a nossa expulsão."
Edgar sentia o peso daquele chimarrão, agora com um sabor amargo de memória e injustiça. A erva-mate, tão presente na cultura local, havia se tornado um dos pilares da exploração que culminou em um conflito sangrento. A ganância da ferrovia e da madeireira americana, sedentas pelos recursos naturais da região, se sobrepusera aos direitos e à própria existência daquela gente.
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