As Letras do Rio e a Sombra na Vila Garcia
Edgar mergulhou nas palavras de Isaque de Borba Corrêa na Biblioteca Pública Municipal Machado de Assis. A história da nomenclatura do rio, desde o complexo "Camboriguassu" até o simples "Cambriú", revelava a voz do povo moldando a própria identidade do lugar. A constatação de que a colonização não se restringira aos açorianos, com a chegada do português Baltasar Pinto Corrêa, ampliava a narrativa de origens.
A menção à criação da Freguesia e da Vila, impulsionada pela Igreja e depois transformada pelos republicanos, traçava um caminho sinuoso até a Balneário Camboriú que ele conhecia. Mas foi a figura de Thomaz Garcia, o alferes que prosperou no interior, dando nome à Vila Garcia, que realmente o prendeu. Aquele nome ecoava nas palavras perturbadas de Joaquim Maria.
Enquanto a biblioteca silenciosa o envolvia, a leitura do trecho sobre o sino da matriz e suas ressonâncias em noites de lua cheia e maré baixa intensificou a estranheza de suas próprias experiências. A linha entre o folclore e a realidade parecia cada vez mais tênue.
A familiar pulsação começou, sutil a princípio, mas crescendo em intensidade. O cheiro de papel envelhecido se misturou a uma aragem úmida e um distante aroma de fumaça. A Passarela da Barra o chamava, o conhecimento recém-adquirido agora um mapa para a próxima travessia.
A vertigem o envolveu, a imagem das letras impressas se desfazendo em um turbilhão. Quando a tontura passou, a densa neblina e o cheiro acre o receberam novamente. Mas desta vez, a luz era mais definida, revelando as ruínas de construções que outrora ostentaram uma arquitetura robusta.
Joaquim Maria não estava onde o deixara, mas Edgar ouviu um murmúrio rouco vindo de uma viela lateral. O homem estava ali, encolhido, agarrando os próprios braços como se tremesse de frio, apesar da umidade do ar.
"Você... você leu sobre ele, não é?" sussurrou Joaquim Maria, os olhos fixos em Edgar com uma intensidade febril. "Sobre o Garcia... e a promessa do novo tempo."
Edgar sentiu um calafrio, a conexão entre sua leitura e aquele lugar sombrio se tornando inegável. "Você falou de Thomaz Garcia... a Vila Garcia... o que aconteceu aqui?"
Joaquim Maria tossiu, um som seco e doloroso. "Ele chegou... depois que a sede foi transferida. Trazia ideias novas... um poder diferente. Dizia que a Barra estava velha, corrompida. Que a Vila Garcia seria o futuro."
Ele apontou para a torre escura que se elevava na névoa, o sino rachado visível em sua abertura. "O sino... ele tocou quando a mudança foi feita à força. Alguns diziam que era um lamento... outros, um prenúncio."
"E o fogo?" perguntou Edgar, lembrando das palavras sobre purificação.
Um brilho estranho acendeu nos olhos de Joaquim Maria. "O fogo... veio depois. Garcia dizia que era para limpar o passado... para construir sobre as cinzas. Mas... muita coisa se perdeu."
"Onde está Thomaz Garcia agora?" Edgar precisava entender o papel daquele homem em tudo aquilo.
Joaquim Maria hesitou, um medo súbito toldando seu olhar. "Ele... ele espera. Lá em cima. Perto do sino. Ele diz que quando o tempo certo chegar, o sino tocará novamente... para marcar o verdadeiro início."
Naquele instante, um som gutural e rachado ecoou pela vila destruída. Era o sino, um único toque lento e pesado que parecia carregar a sombra de Thomaz Garcia e a tragédia daquele lugar esquecido no tempo. Edgar sentiu que havia mergulhado na própria história que acabara de ler, e o sino, de alguma forma, era a chave para desvendar seus segredos mais sombrios.
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