Meia Noite em BC - Capítulo 23: Às Margens do Camboriú-Açu
O som gutural do sino rachado ainda reverberava em seus ouvidos enquanto a Passarela da Barra o devolvia à noite contemporânea. A sombra de Thomaz Garcia pairava sobre sua mente, misturada à imagem da vila destruída e à história que acabara de ler sobre as origens da cidade. Precisava de um ponto de referência, algo que conectasse aquele passado sombrio com o presente. O rio, o Camboriú, mencionado tantas vezes nos relatos, parecia ser esse elo.
Na manhã seguinte, Edgar decidiu seguir o curso do rio, buscando um ponto onde pudesse sentir sua história. Caminhou pela orla, observando como o rio serpenteava pela cidade moderna, suas margens agora ladeadas por edifícios e avenidas movimentadas. Imaginou como era em tempos passados, quando o rio era a principal via de acesso e o coração da vida local.
Afastando-se do centro, encontrou um trecho mais preservado, onde a vegetação ainda se aproximava das margens. Ali, a poluição sonora da cidade se atenuava, substituída pelo murmúrio suave da água e o canto dos pássaros. Sentou-se sob uma árvore frondosa, observando o rio correr preguiçosamente em direção ao mar.
Lembrou-se das palavras de Isaque de Borba Corrêa: “Muito antes de haver povoamento o nome do Rio Camboriú já figurava em mapas antigos sob as mais diversas grafias. Uma das formas mais eruditas, mais elaborada, foi Camboriguassu…”
Tentou visualizar o rio em sua forma original, o "Camboriguassu" imponente que cortava a paisagem selvagem, muito antes da chegada de Baltasar Pinto Corrêa. Imaginou os povos indígenas que habitavam suas margens, os primeiros colonizadores portugueses navegando em suas águas, o lento desenvolvimento do Arraial do Bom Sucesso às suas margens.
A história de Baltasar Pinto Corrêa, o português de Lamego que se estabeleceu às margens do rio em 1821, ganhou uma nova dimensão. Edgar tentou visualizar o homem, desbravando a mata densa, construindo sua moradia, dando início a uma nova vida em um lugar remoto e selvagem.
As palavras do historiador sobre a lenda da origem do nome, "…o nome Camboriú, vem de ‘Camba o Rio’, porque um português ao ser indagado onde morava, dizia que era onde camba o rio, ou seja, onde o rio faz uma curva”, trouxeram um sorriso aos lábios de Edgar. Aquela explicação simples e pitoresca, ligada à geografia do rio e ao linguajar popular, parecia capturar a essência daquele lugar.
Enquanto contemplava o rio, Edgar sentiu uma estranha melancolia. A história de Thomaz Garcia e da Vila Garcia destruída pelo fogo parecia distante, mas a sombra daquele evento sombrio ainda pairava sobre a beleza tranquila do rio. Ele se perguntava se o sino, de alguma forma, estava ligado àquela tragédia, se o rio, testemunha silenciosa de toda a história da região, guardava os segredos do passado. A busca pela verdade continuava, e o rio, o antigo Camboriguassu, parecia ser o guia para desvendar os mistérios de Balneário Camboriú.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.