Espectros do Futuro: Capítulo 189 - O Hino Inédito e o Bruxo Desconhecido: Uma Melodia Oculta de Machado (Balneário Camboriú, Brasil)
A mensagem vibrante de um ex-coordenador de artes ecoou na caixa de entrada de Edgar, despertando sua curiosidade jornalística adormecida em meio à imersão no Efeito Mozart. A notícia era bombástica: uma letra inédita do Hino Nacional, escrita por ninguém menos que Machado de Assis, havia sido descoberta em um jornal catarinense do século XIX.
"Machado de Assis... autor do Hino Nacional?" Edgar murmurou, relendo a mensagem com crescente incredulidade. A imagem do "Bruxo do Cosme Velho", o mestre da ironia e da profundidade psicológica, associado à grandiosidade cívica do hino pátrio, parecia incongruente com o que se sabia sobre o escritor.
A informação compartilhada detalhava a incrível descoberta do pesquisador independente Felipe Rissato. A pista inicial havia surgido em um anúncio de 1867 no jornal O Mercantil, do Rio de Janeiro, que noticiava a apresentação de um Hino Nacional com letra de Machado de Assis em um evento em Desterro (a antiga Florianópolis) para celebrar o aniversário de Dom Pedro II. No entanto, a letra em si nunca havia sido publicada no Mercantil.
A chave para o mistério, segundo o relato, estava em Santa Catarina, no acervo da Biblioteca Pública do estado, onde edições do jornal O Constitucional de 1867 preservavam a letra inédita. A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ironicamente, só possuía edições desse jornal a partir de 1868, perdendo a preciosidade da descoberta.
Edgar sentiu a adrenalina da reportagem correr em suas veias. Uma descoberta literária dessa magnitude, envolvendo um nome canônico da literatura brasileira e um símbolo nacional como o Hino, era uma história que precisava ser contada. Ele imediatamente começou a pesquisar online, buscando confirmações da descoberta e mais detalhes sobre o pesquisador Felipe Rissato e os jornais mencionados.
Em poucos minutos, Edgar encontrou diversas notícias de 2018 que corroboravam a informação. A descoberta da letra inédita havia gerado grande entusiasmo no meio literário e jornalístico. As reportagens citavam os versos encontrados em O Constitucional, publicados em duas edições de dezembro de 1867.
Edgar leu com atenção os versos transcritos:
"Das florestas em que habito/ Solto um canto varonil:/ Em honra e glória de Pedro/ O gigante do Brasil."
O ritmo em redondilha maior e a linguagem formal condiziam com a época, embora a simplicidade da homenagem a Dom Pedro II contrastasse com a complexidade usual da prosa machadiana. As outras estrofes seguiam o mesmo tom laudatório, celebrando o imperador e a grandeza da nação.
A mente de Edgar começou a trabalhar. Por que essa letra permaneceu desconhecida por tanto tempo? O anúncio no Mercantil indicava que o hino chegou a ser apresentado publicamente em Desterro. Teria sido uma obra encomendada para a ocasião específica do aniversário do imperador? Teria Machado de Assis escrito outras versões para o Hino Nacional ao longo de sua vida?
A ausência da letra nos arquivos da Biblioteca Nacional até a descoberta em Santa Catarina era um mistério intrigante. A destruição de parte do acervo do Museu Nacional em 2018, mencionada na mensagem inicial, ressaltava a fragilidade da memória e a importância de descobertas como essa para resgatar fragmentos do passado.
Edgar sentiu a necessidade de aprofundar essa investigação. Ele precisava entrar em contato com Felipe Rissato para entender o processo da descoberta, examinar as edições originais de O Constitucional e contextualizar essa letra inédita dentro da obra e da época de Machado de Assis.
A possibilidade de trazer à luz um lado desconhecido de um dos maiores escritores brasileiros, sua incursão na poesia cívica e sua relação com a figura de Dom Pedro II, era um fio narrativo fascinante que Edgar não podia ignorar em sua reportagem. A melodia oculta de Machado de Assis esperava para ser ouvida novamente, mais de um século e meio depois de sua criação.
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