quarta-feira, 7 de maio de 2025

 A menção do homem devoto sobre o cemitério pairava na minha mente como uma névoa matinal sobre a orla. Havia uma ressonância melancólica em suas palavras, uma sugestão de histórias silenciadas sob a pedra fria. Naquela noite, a Passarela da Barra parecia me chamar com uma intensidade diferente, não mais a curiosidade vacilante das primeiras vezes, mas uma necessidade quase sombria de desvendar um passado esquecido. Lucas, agora um observador mais atento do meu estranho fascínio pela meia-noite, me acompanhou, seu olhar perscrutando a escuridão com uma nova seriedade.

Antes de chegarmos à passarela, vaguei pela Praça do Pescador, a brisa noturna carregando o cheiro salgado do mar e o murmúrio das ondas quebrando na areia. O movimento dos barcos ancorados, a luz tênue dos postes refletindo na água escura – tudo parecia carregar uma história silenciosa. De repente, meus pés tocaram algo duro entre os paralelepípedos perto da estátua dos pescadores. Era um relógio de bolso antigo, com um mostrador em algarismos romanos elegante, incrustado como se tivesse sido deixado ali há muito tempo. Ao pegá-lo, senti um arrepio percorrer meu braço. A praça, o próprio limiar de minhas viagens no tempo, pareceu vibrar levemente ao seu toque. Guardei-o no bolso, uma nova sensação de que havia encontrado mais do que um simples objeto perdido.

À meia-noite, a travessia nos engolfou com uma sutileza sinistra. O ar se tornou mais pesado, carregado de um cheiro de terra úmida e flores murchas. A iluminação da cidade moderna desapareceu, substituída por uma palidez espectral da lua e o tremular vacilante de alguns lampiões distantes. O sino da Igreja de Santo Amaro soou lento e grave, como um dobre fúnebre. Diante de nós, a Praça do Pescador parecia menor, mais austera, e a silhueta escura de árvores retorcidas delineava o que só podia ser o antigo cemitério de Balneário Camboriú.

O campo santo era um labirinto de sombras e silêncio. Túmulos de diferentes épocas se erguiam como espectros de pedra, alguns adornados com anjos sombrios e cruzes musgosas, outros simples lápides gastas pelo tempo. Caminhamos осторожно pelos caminhos de terra batida, o som dos nossos passos abafado pela vegetação rasteira. A atmosfera era carregada de uma tristeza palpável, a sensação de inúmeras histórias inacabadas confinadas sob a terra.

De repente, avistamos uma figura solitária perto de um túmulo mais elaborado. Um homem de vestes escuras, com uma câmera de grande formato apoiada em um tripé, movia-se com uma solenidade quase ritualística. Ele parecia estar preparando o cenário para uma fotografia. Ao seu lado, uma mulher vestida de preto, o rosto escondido por um véu, permanecia imóvel diante da lápide.

Lucas sussurrou: "Um fotógrafo... de mortos? Era uma prática comum na época."

Observamos em silêncio enquanto o fotógrafo ajustava sua lente, a luz fraca da lua iluminando por um instante o rosto pálido e sereno da mulher através do véu. A cena era um estudo sombrio da mortalidade, a tentativa de eternizar a ausência em uma imagem. Aquele instante congelado no tempo parecia encapsular a futilidade da vaidade humana diante do inevitável fim, um eco distante do "Humanitismo" de Quincas Borba, onde a vida era uma engrenagem indiferente à individualidade.

Enquanto o fotógrafo cobria a cabeça com um pano preto para focar, notei algo peculiar na lápide diante da mulher. Além do nome e das datas, havia uma pequena inscrição gravada: "A memória é a única eternidade que nos resta." A frase ressoou em minha mente, um contraponto melancólico à visão fria da transformação da matéria de Quincas Borba.

De repente, um som fraco chamou nossa atenção. Vindo de trás de um túmulo mais antigo, ouvimos um soluço abafado. Aproximamo-nos осторожно e vimos um jovem, mal vestido e com as mãos calejadas, curvado em prantos diante de uma sepultura simples, marcada apenas por uma cruz de madeira quase apagada. A dor em seu rosto era crua e desesperada, um contraste gritante com a resignação silenciosa da mulher rica sendo fotografada. A morte, pensei, não平等ava a dor.

Lucas observou a cena com um olhar pensativo. "A mesma tragédia... em diferentes escalas," murmurou. "A vida seguindo seu curso implacável, indiferente ao sofrimento individual."

Enquanto o fotógrafo terminava sua macabra tarefa e se preparava para partir com a mulher enlutada, notei algo caído perto da sepultura do jovem: um pequeno medalhão de prata, oxidado pelo tempo. Hesitei por um instante, mas a curiosidade falou mais alto. Esperei que eles se afastassem e peguei o objeto. Era um pingente com as iniciais "A.M." gravadas.

Naquele instante, a atmosfera começou a se dissipar, as sombras a se esvair. O som distante do sino da igreja no presente ecoou, anunciando o fim da nossa breve incursão no passado. Retornamos à Passarela da Barra, a imagem sombria do cemitério e a dor silenciosa do jovem gravadas em nossas memórias.

De volta à luz da cidade moderna, examinei o medalhão. As iniciais "A.M." não me diziam nada, mas havia uma estranha sensação de familiaridade, um eco distante de algo que não conseguia identificar. Lucas, com seu olhar de arqueólogo, analisou o objeto com interesse. "Prata de época... o estilo da gravação sugere o início do século XX. 'A.M.'... pode ser qualquer um."

No entanto, a imagem do fotógrafo de mortos e a inscrição na lápide da mulher rica ("A memória é a única eternidade que nos resta") ficaram comigo. Era uma visão da morte e da memória em um tempo diferente, um vislumbre de como a ausência era enfrentada em uma Balneário Camboriú que já não existia. O medalhão em minha mão, encontrado curiosamente antes da travessia, era um pequeno fragmento tangível desse passado, uma pista silenciosa para uma história que ainda precisava ser contada. Sentia que o próximo passo seria tentar descobrir a quem pertencera aquele medalhão, e qual história a letra "A" e a letra "M" poderiam desenterrar

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