quarta-feira, 7 de maio de 2025

Edgar e o Papel Ausente do Estado 

No topo reluzente da Trump Tower, com a vastidão luminosa de Manhattan estendendo-se sob seus pés, Edgar observava a pulsação incessante da metrópole americana. Aquele cenário de poder econômico e influência global contrastava starkamente com a história de abandono e violência que ele carregava consigo desde as terras do Contestado. Aquele não era um local óbvio para meditar sobre a ausência do Estado, mas a ironia do contraste aguçava suas reflexões.

Enquanto aguardava um compromisso relacionado ao seminário sobre a maternidade finlandesa, Edgar se permitiu divagar sobre o papel do Estado brasileiro na Guerra do Contestado. Lá, em meio à exuberância do capitalismo americano, a falha fundamental do Estado em proteger sua própria população ressoava com uma clareza dolorosa.

"Olhando para tudo isso," murmurou Edgar para si mesmo, contemplando as luzes distantes, "é fácil esquecer que para muitas comunidades, o Estado não é um provedor de serviços ou um garantidor de direitos, mas sim uma força distante, por vezes opressora, ou simplesmente ausente."

Sua mente viajou de volta aos relatos dos sobreviventes do Contestado: a falta de infraestrutura básica, a disputa por terras sem mediação justa, a violência policial e militar desproporcional contra um povo desarmado e com suas próprias crenças. A ausência de um Estado que oferecesse amparo, justiça e diálogo havia criado um vácuo preenchido pela liderança espiritual e pela organização comunitária em torno de figuras como São João Maria.

"O Estado," pensou Edgar, "deveria ser o catalisador da 'fotossíntese humana' em sua escala mais ampla, fornecendo a 'luz' da justiça social, da educação, da saúde e da segurança para que a 'energia' da sociedade possa se transformar em bem-estar coletivo. Mas no Contestado, o Estado se tornou uma força opaca, uma 'escuridão' que sufocou a vida e a esperança."

A imponência da Trump Tower, símbolo do poder individual e da iniciativa privada, paradoxalmente o fazia questionar a responsabilidade coletiva e o papel essencial de um Estado presente e justo. A ausência desse Estado no Contestado havia permitido que a violência florescesse e que as feridas permanecessem abertas por mais de um século.

Edgar refletiu sobre as discussões em Washington D.C., sobre a importância do reconhecimento e da reparação. Ele percebia que a busca por justiça para as vítimas do Contestado passava inevitavelmente pela responsabilização do Estado, não apenas pelo passado, mas também pelo presente, garantindo que as comunidades descendentes tivessem acesso aos direitos que lhes foram historicamente negados.

"A 'fotossíntese humana' em sua plenitude," concluiu Edgar, com uma determinação renovada, "requer um solo fértil de justiça e igualdade, nutrido pela 'luz' de um Estado que cumpre seu papel de proteger e amparar todos os seus cidadãos, sem distinção. A história do Contestado é um lembrete sombrio do que acontece quando essa luz se apaga."

Naquele instante, no pináculo do poder americano, a mente de Edgar estava fixada nas humildes comunidades do sul do Brasil, clamando por um reconhecimento e uma justiça que tardavam a chegar, um reconhecimento do papel fundamental que o Estado deveria ter desempenhado e que ainda precisava assumir.

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