quinta-feira, 8 de maio de 2025

 

Os Sinais de Sombrio e o Ciclo da Existência

Deixando para trás a história mineira de Turvo e seus ecos de pressentimentos, Edgar viajou para Sombrio. A cidade, com seu nome que sugeria uma atmosfera mais reservada e contemplativa, parecia envolta em uma calma que convidava à introspecção. Edgar sentia que se aproximava de uma compreensão mais profunda da "visão" que buscava, algo que talvez transcendesse a mera previsão do futuro. As intuições de Ermo e os presságios de Turvo o haviam conduzido a este ponto, na esperança de encontrar em Sombrio a chave para decifrar a natureza da sabedoria contida na lendária carta.

No centro cultural de Sombrio, Edgar conheceu o Sr. Valério, um homem de olhar penetrante e voz pausada, considerado o guardião da memória da cidade. Ele o recebeu com uma gentileza melancólica, como se carregasse consigo o peso das histórias não contadas.

Edgar: "Sr. Valério, estou pesquisando sobre antigas tradições da região, particularmente sobre pessoas que possuíam uma compreensão especial dos 'sinais dos tempos'."

Sr. Valério assentiu lentamente, seus olhos fixos em uma fotografia antiga na parede. "Ah, meu jovem, por aqui sempre tivemos nossos 'entendidos'. Não como esses videntes de feira, mas pessoas que sabiam ler a terra, o vento, até mesmo o coração das pessoas. O Velho Inácio, que morava nas grotas, era um deles. Não falava em adivinhar o amanhã, mas entendia o porquê do hoje."

Edgar: "E essa compreensão se manifestava de que forma?"

Sr. Valério: "Ele dizia que tudo na vida seguia um ciclo. As plantações, as marés, o humor das pessoas. Quem aprendesse a observar esses ciclos, entendia o fluxo da existência. Não era prever, era reconhecer o ritmo. Sabia quando plantar, quando colher, quando esperar tempos difíceis. Era uma sabedoria da paciência, da observação."

Enquanto Sr. Valério falava, Edgar se lembrou de uma das quadras de Nostradamus, a Centúria I, Quadra 65:


Le Sol & l'Aigle au vainqueur paroîtront,

Response au suppliant asseuree:

Et les vaincus crainte si grand' auront,

Que Sol, Aigle, Rose en eux sera serre'e.


Tradução Livre:


O Sol e a Águia ao vencedor aparecerão,

Resposta ao suplicante assegurada:

E os vencidos terão tão grande temor,

Que Sol, Águia, Rosa neles será encerrada.


As interpretações dessa quadra eram vastas, com alguns a ligando a impérios ascensos e quedas inevitáveis, a ciclos de vitória e derrota. Edgar ponderou se a sabedoria do Velho Inácio, essa compreensão dos ciclos da natureza e da vida, não seria uma forma mais fundamental de "visão", uma percepção da dança constante da existência, enquanto Nostradamus tentava mapear os picos e vales específicos dessa dança. A busca por prever eventos singulares contrastava com a aceitação dos ritmos cósmicos.

Sr. Valério levou Edgar até uma colina suave nos arredores da cidade, onde uma antiga figueira retorcida se erguia solitária. Na base da árvore, havia um círculo de pedras musgosas.

Sr. Valério: "Diziam que o Velho Inácio vinha aqui para meditar. Ele não buscava ver o futuro, mas entender o presente em sua totalidade, sabendo que o futuro nada mais é que a repetição, com variações, dos ciclos que já foram."

Edgar tocou as pedras frias, sentindo a conexão com uma sabedoria que não se preocupava com datas e nomes, mas com a essência da existência. A "carta" que ele buscava, ele começou a suspeitar, poderia não ser uma previsão do futuro, mas sim uma chave para essa compreensão atemporal, uma forma de ler os sinais do presente com a profundidade que o Velho Inácio demonstrava. A busca pela linearidade do tempo profético começava a ceder lugar à contemplação da natureza cíclica da vida.


IV


A Travessia Espectral e os Druidas do Tempo (Sombrio, Santa Catarina / Viagem para Irlanda do Norte)


A contemplação silenciosa do círculo de pedras em Sombrio deixou Edgar com uma sensação de que a "sabedoria" que buscava na lendária carta talvez não residisse em previsões do futuro, mas sim em uma compreensão mais profunda do presente e dos ciclos da existência. A figura do Velho Inácio, com sua leitura atenta dos sinais da natureza, oferecia uma perspectiva intrigante, distante da grandiosidade apocalíptica de Nostradamus. No entanto, uma frase de Sr. Valério ecoava em sua mente: "Diziam que ele aprendeu alguns de seus saberes com viajantes de terras distantes, homens com olhares para além do horizonte."

Investigando mais a fundo, Edgar encontrou uma antiga crônica local que mencionava a passagem por Sombrio, séculos atrás, de um grupo de marinheiros com símbolos e histórias que lembravam as tradições celtas da Irlanda. A crônica sugeria um intercâmbio de conhecimentos, uma troca de olhares sobre o tempo e o mistério. Uma vaga referência a um "manuscrito antigo" levado por esses viajantes acendeu uma nova chama na busca de Edgar, direcionando-o para a Ilha Esmeralda.

Com a passagem aérea reservada, Edgar mergulhou novamente em seus estudos sobre Nostradamus, desta vez com um foco específico nas quadras que poderiam ter alguma ressonância com as tradições celtas e a figura dos druidas, os antigos sacerdotes e videntes daquela cultura. A Centúria VI, Quadra 6, chamou sua atenção:


Apparoistra auuant Tirant cruel,

Six cinq & quarante degrez ciel bruslera:

Tonnerre glace pere y fera cruel,

Tictac blesseront abrupte & reculera.


Tradução Livre:


Aparecerá antes do Tirano cruel,

Sessenta e cinco e quarenta graus o céu queimará:

Trovão e gelo o pai fará cruel,

Tique-taques ferirão abruptamente e recuará.


As interpretações dessa quadra eram diversas, com alguns a ligando a eventos climáticos extremos ou a conflitos em regiões específicas. Edgar, porém, começou a ponderar se a linguagem simbólica não poderia aludir a figuras arquetípicas presentes tanto na mitologia celta quanto nas profecias de Nostradamus. O "Tirano cruel" poderia ser um líder opressor, uma figura recorrente em ambas as tradições. Os "tique-taques" poderiam simbolizar a passagem do tempo, um elemento central na busca por prever o futuro ou compreender os ciclos.

Enquanto o avião cruzava o Atlântico, Edgar lia sobre os druidas, seus rituais ligados à natureza, sua alegada capacidade de interpretar presságios e sua profunda conexão com o mundo espiritual. Ele se perguntava se a "visão" que buscava na carta não teria raízes nessa antiga sabedoria, uma forma de conhecimento que precedia a escrita e se manifestava através da observação, da intuição e de uma profunda sintonia com os ritmos da terra.

A Irlanda do Norte surgiu sob as asas do avião como uma tapeçaria de verdes vibrantes e costas escarpadas, envolta em uma aura de mistério e história. Edgar sentia que a busca pela carta o havia conduzido a um lugar onde o véu entre o passado e o presente parecia mais tênue, onde as lendas de magos e videntes se entrelaçavam com a própria paisagem. A sombra de Nostradamus o acompanhava, mas agora ele buscava também os ecos dos druidas do tempo, na esperança de desvendar a verdadeira natureza da sabedoria que a carta guardava. A travessia espectral do oceano o havia levado a um novo capítulo de sua busca, onde a magia da lenda se fundia com a história ancestral.


V


A Biblioteca de Belfast e os Ecos da História (Belfast, Irlanda do Norte)

O ar frio e úmido de Belfast envolveu Edgar assim que ele deixou o aeroporto. A cidade, com sua história marcada por conflitos e resiliência, exalava uma atmosfera densa, onde o passado parecia palpável nas fachadas dos edifícios e nas conversas sussurradas nas ruas. Edgar dirigiu-se diretamente à Linen Hall Library, uma instituição centenária com uma reputação de abrigar raros manuscritos e uma rica coleção de história irlandesa. Ele esperava encontrar ali alguma conexão entre as lendas que o haviam trazido e a figura enigmática de Nostradamus.

A bibliotecária, Sra. O'Connell, uma senhora de olhar perspicaz e conhecimento enciclopédico, o conduziu à seção de manuscritos antigos. Edgar explicou seu interesse nas tradições locais de videntes e em possíveis interpretações das profecias de Nostradamus na história da Irlanda. Sra. O'Connell mencionou um volume peculiar, pertencente a um antigo estudioso local, repleto de anotações marginais que tentavam decifrar o profeta francês à luz dos turbulentos séculos da história irlandesa.

Folheando as páginas amareladas, Edgar encontrou uma passagem que associava a Centúria I, Quadra 51 a um dos levantes irlandeses contra o domínio inglês:


Chef de l'armée par lascheté perdra la victoire,

Les hardis morts, les timides preschez:

Classe destruite, regne grand encourra vittoire,

Les asardis n'oseront approcher.


Tradução Livre:


O chefe do exército por covardia perderá a vitória,

Os ousados mortos, os tímidos pregados:

Classe destruída, grande reino terá vitória,

Os hesitantes não ousarão se aproximar.


O estudioso local havia interpretado o "chef de l'armée" como um líder irlandês indeciso, levando à derrota ("perdra la victoire"). "Les hardis morts" seriam os bravos guerreiros caídos, e "les timides preschez" os que pregavam a submissão. A "classe destruite" seria a antiga ordem gaélica, e o "regne grand" o domínio inglês vitorioso. Os "asardis" (hesitantes) seriam aqueles que não ousaram se juntar à luta.

Edgar ponderou sobre a natureza dessa interpretação. Era uma leitura forçada, moldando a vaga linguagem de Nostradamus para se encaixar em eventos históricos específicos? Ou havia uma ressonância mais profunda, uma percepção atemporal dos padrões de poder e conflito que se repetiam ao longo da história, capturada de forma enigmática pelo profeta? A tendência humana de buscar significado e encontrar padrões, mesmo em textos obscuros, parecia evidente.

Sra. O'Connell mencionou outros exemplos encontrados nas anotações, ligando outras quadras a figuras lendárias irlandesas ou a eventos como a Grande Fome. Cada interpretação era um exercício de criatividade, tecendo fios tênues entre a linguagem profética e a tapeçaria complexa da história irlandesa.

Enquanto Edgar examinava as anotações, sentia a força da narrativa histórica e a busca incessante por sentido. As profecias de Nostradamus, descontextualizadas e abertas a interpretações, se tornavam um espelho onde cada cultura e cada época pareciam buscar seus próprios reflexos, seus próprios medos e esperanças projetados nas palavras do vidente francês. Em Belfast, no silêncio da antiga biblioteca, Edgar percebia que a sombra do profeta se estendia por toda a história humana, convidando à especulação e à busca por respostas que talvez nunca fossem encontradas. A busca pela carta, ele sentia, o estava levando a explorar não apenas o conhecimento oculto, mas também a própria natureza da crença e da interpretação.


VI

 A Costa Selvagem e os Bardos da Visão (Condado de Clare, Irlanda do Norte)

Deixando para trás a atmosfera histórica de Belfast, Edgar viajou para a costa oeste da Irlanda, para o Condado de Clare. As paisagens dramáticas de penhascos escarpados batidos pelo Atlântico, os pequenos vilarejos com suas tradições gaélicas preservadas e a aura mística que pairava sobre a região pareciam ecoar as lendas de videntes e profecias ancestrais. Edgar esperava encontrar ali uma perspectiva mais folclórica e intuitiva sobre a natureza da "visão", contrastando com as interpretações históricas encontradas em Belfast.

Em um centro de folclore em Doolin, Edgar conheceu a Dra. Niamh Connolly, uma etnolinguista apaixonada pelas tradições orais da região. Ela falou sobre os "aos sí" (o povo das fadas) e suas conexões com o outro mundo, um reino onde o tempo parecia fluir de maneira diferente e onde alguns indivíduos eram agraciados com o "segundo olhar" – a capacidade de ver além do véu da realidade imediata.

Dra. Connolly: "Aqui, na costa, sempre tivemos histórias de pessoas com o 'don na radharc' – o dom da visão. Não eram necessariamente profecias de grandes eventos futuros, como as que encontramos em livros. Era mais uma percepção aguçada do presente, uma compreensão das correntes sutis que ligam o mundo visível ao invisível. Alguns podiam prever a morte de alguém, outros sabiam onde encontrar objetos perdidos. Era uma intuição profunda, ligada à terra e às energias do lugar."

Enquanto a Dra. Connolly falava, Edgar se lembrou da Centúria II, Quadra 96 de Nostradamus:


Ville neufve de pensée voulentaire,

Indiscrete à sainte prophane changer:

Seront contraints les princes s'accorder,

Pour chasser d'eux rebellion estranger.


Tradução Livre:


Cidade nova de pensamento voluntário,

Indiscreta a sagrado profano mudar:

Serão constrangidos os príncipes a concordar,

Para expulsar deles rebelião estrangeira.

As interpretações dessa quadra eram variadas, com alguns a ligando a cidades de fundação recente e a conflitos religiosos ou políticos. Edgar, no entanto, ponderou se a "pensée voulentaire" (pensamento voluntário) não poderia aludir à própria natureza da interpretação profética, a mente humana moldando o futuro através de suas expectativas e medos. O "segundo olhar" dos videntes locais, embora descrito como uma intuição, também envolvia uma forma de "pensamento" que transcendia a lógica imediata. Seria a profecia, em sua essência, uma projeção da consciência humana sobre o tecido do tempo?

A Dra. Connolly também mencionou os "filí" – os antigos bardos irlandeses, que possuíam um conhecimento profundo da história, da poesia e, em algumas tradições, da adivinhação. Sua "visão" estava ligada à sua maestria da linguagem e à sua capacidade de tecer narrativas que ressoavam com os arquétipos do passado e do futuro. Edgar percebeu um paralelo com a linguagem simbólica e enigmática de Nostradamus, ambos buscando comunicar verdades profundas através de um véu de palavras.

Na costa selvagem de Clare, Edgar sentia que a busca pela "visão" o levava para além da mera previsão de eventos, em direção a uma compreensão mais profunda da natureza da percepção humana, da linguagem e da nossa eterna tentativa de dar sentido ao tempo.


VII

A Comunidade de Erris e os Sonhos Precognitivos (Condado de Mayo, Irlanda do Norte)

A paisagem do Condado de Mayo, com suas vastas turfeiras e a sensação de isolamento ancestral, oferecia um novo cenário para a busca de Edgar. Ele havia ouvido falar de pequenas comunidades na região de Erris que mantinham uma forte tradição de sonhos precognitivos, visões que surgiam durante o sono e se manifestavam na realidade. Edgar esperava encontrar ali uma manifestação mais direta e espontânea da percepção do tempo, talvez oferecendo uma nova perspectiva sobre a natureza da profecia.

Em uma casa modesta em um vilarejo isolado, Edgar conversou com Siobhán, uma mulher de meia-idade com uma calma enigmática. Ela relatou ter tido sonhos vívidos que, em diversas ocasiões, precederam eventos reais – acidentes, notícias de parentes distantes, até mesmo pequenos acontecimentos cotidianos.

Siobhán: "Não é algo que eu possa controlar. Simplesmente acontece. Às vezes, o sonho é claro, outras vezes é como um quebra-cabeça que só faz sentido depois que acontece. É como se o tempo se dobrasse, e eu pudesse espiar um pedacinho do que está por vir."

Enquanto Siobhán descrevia suas experiências, Edgar se lembrou da Centúria I, Quadra 13 de Nostradamus:

Par foudre en l'arche or & argent fondus,

Des deux captifs l'vn l'autre mangera:

De la cité le plus grand estendu,

Quand submergez la proue nagera.


Tradução Livre:


Por raio na arca ouro e prata fundidos,

Dos dois cativos um ao outro comerá:

Da cidade o maior estendido,

Quando submersos a proa nadará.


As interpretações dessa quadra eram amplamente simbólicas, ligando-a a conflitos, traições e reviravoltas inesperadas. Edgar, no entanto, focou na imagem do raio como um evento súbito e inesperado, uma irrupção do futuro no presente, semelhante à forma como os sonhos precognitivos se manifestavam na vida de Siobhán. A "arca" poderia ser a mente, e os "dois cativos" aspectos conflitantes da psique, com a revelação (o "ouro e prata fundidos") surgindo de forma abrupta.

Siobhán explicou que seus sonhos não eram sempre lineares ou fáceis de interpretar. Muitas vezes, eram fragmentos, símbolos ou emoções intensas que só encontravam seu significado após os eventos. Isso ecoava a natureza obscura e simbólica das profecias de Nostradamus, onde a clareza muitas vezes só surgia após o suposto "cumprimento".

Na comunidade de Erris, Edgar percebeu que a percepção do tempo não era necessariamente uma busca intelectual por previsões, como parecia ser o caso de Nostradamus, mas sim uma experiência visceral e espontânea, enraizada na própria psique humana. Os sonhos precognitivos representavam uma forma de "visão" mais misteriosa e menos controlável, um vislumbre fugaz do futuro que desafiava a compreensão racional. A busca pela carta, Edgar sentia, o estava levando a explorar as diversas camadas da percepção do tempo, desde a contemplação da natureza até os labirintos da mente adormecida.


VIII

O Encontro em Dublin e a Visão do Pontífice (Dublin, Irlanda do Norte)

A atmosfera cosmopolita e intelectual de Dublin ofereceu um contraste marcante com a paisagem rural da Irlanda do Norte. Edgar buscava agora uma perspectiva mais institucional e teológica sobre a natureza da profecia e a busca humana por desvendar o futuro. Ele havia conseguido agendar um encontro com o Padre Liam O'Connell (sem parentesco com a bibliotecária de Belfast), um renomado estudioso de história da Igreja e filosofia medieval no Trinity College.

No escritório acolhedor do padre, cercado por estantes repletas de livros antigos, Edgar explicou sua pesquisa, mencionando suas descobertas sobre as tradições locais de "visão" e sua exploração das profecias de Nostradamus.

Edgar: "Padre Liam, tenho me deparado com diversas formas de crença na capacidade de perceber o futuro, desde intuições populares até as complexas quadras de Nostradamus. Gostaria de entender a visão da Igreja Católica sobre essas questões, especialmente considerando a eleição do Papa Leão XIV e sua formação filosófica."

Padre Liam sorriu cordialmente. "Ah, a eterna fascinação humana pelo 'o que será'... A Igreja sempre adotou uma postura cautelosa em relação à profecia secular. Acreditamos que a verdadeira profecia é um dom divino, concedido para um propósito específico dentro da história da salvação, culminando na revelação de Jesus Cristo. As Escrituras nos alertam contra os falsos profetas e a busca por adivinhação."

Ele continuou: "Quanto a figuras como Nostradamus, a Igreja geralmente os vê como homens de seu tempo, influenciados pela astrologia e pelas crenças populares. Suas obras são analisadas mais como fenômenos culturais e históricos do que como revelações divinas. A ambiguidade de sua linguagem permite inúmeras interpretações, muitas vezes moldadas por eventos posteriores."

Edgar mencionou suas reflexões sobre a possível perspectiva do Papa Leão XIV, dada sua sólida formação filosófica e seu conhecimento da obra de Santo Agostinho.

Padre Liam: "Ah, o Santo Agostinho... Ele próprio refletiu profundamente sobre a natureza do tempo e da eternidade. Para Agostinho, o tempo é uma criação da alma, uma distensão da mente. A busca por prever o futuro, nessa visão, seria uma tentativa de apreender o incognoscível, algo que reside unicamente na providência divina. Acredito que o Papa Leão XIV, com sua inclinação para a razão e a tradição, adotaria uma visão semelhante, enfatizando a importância da fé e da confiança em Deus diante da incerteza do futuro."

Padre Liam então citou a Centúria X, Quadra 66 de Nostradamus:


Au fondement sacré de tour ronde & croistre,

De nuict & jour leuant & plorant:

Verre & sang & or la balence poistre,

L'idolatrie à bas & les priers florant.


Tradução Livre:


No fundamento sagrado de torre redonda e crescente,

De noite e dia levantando e chorando:

Vidro e sangue e ouro a balança pesar,

A idolatria abaixo e as preces florescendo.


As interpretações dessa quadra eram diversas, com alguns a ligando a eventos religiosos e a mudanças na Igreja. Padre Liam ofereceu uma perspectiva teológica, vendo a "tour ronde & croistre" como uma possível alusão à Igreja em sua jornada histórica, com seus momentos de alegria ("levant") e sofrimento ("plorant"). A "balence poistre" (balança pesar) poderia simbolizar o julgamento divino, e a "idolatrie à bas & les priers florant" o triunfo da verdadeira fé sobre as falsas doutrinas.

Na conversa com Padre Liam, Edgar percebeu a distância entre a abordagem da fé institucional e a fascinação popular pelas profecias seculares. Enquanto a Igreja enfatizava a confiança na providência divina e a centralidade da revelação em Cristo, a busca por decifrar Nostradamus parecia enraizada em um desejo humano mais amplo de controlar o desconhecido. A figura do Papa Leão XIV, com sua formação intelectual e sua fé professada, representava um farol de razão em um mar de especulações. A busca pela carta, Edgar sentia, o estava levando a confrontar diferentes formas de compreender o tempo e o mistério da existência.


IX


A Abadia de Kylemore e a Sincronia dos Espectros (Condado de Galway, Irlanda do Norte)

A Abadia de Kylemore, com sua arquitetura gótica refletida nas águas calmas de um lago cercado por montanhas verdejantes, oferecia um cenário de contemplação e beleza melancólica. Para Edgar, aquele lugar parecia um ponto de convergência para as diversas formas de "visão" que ele havia explorado ao longo de sua jornada pela Irlanda. As lendas locais de Erris, as interpretações históricas de Belfast, a intuição costeira de Clare e a perspectiva teológica de Dublin ecoavam em sua mente enquanto ele caminhava pelos jardins silenciosos.

Ele se sentou à beira do lago, seus cadernos abertos, tentando sintetizar suas descobertas. A "visão" do futuro, ele percebia, se manifestava de maneiras surpreendentemente diversas. Havia a leitura dos sinais da natureza em Ermo, a intuição visceral em Turvo, a sabedoria cíclica de Sombrio, as projeções históricas em Belfast, a percepção intuitiva ligada à terra em Clare e os sonhos precognitivos de Erris. E, pairando sobre tudo isso, a sombra enigmática de Nostradamus, com suas quadras que pareciam ressoar com a busca humana por desvendar o tempo em todas as suas manifestações.

Edgar releu uma das quadras que havia marcado, a Centúria III, Quadra 2:

Apres cinq cens ans comptez non tenus,

Vn qu'on tenoit pour ne point estre,

Du costé d'Orion vn sort estendu,

Chasteau, prince mort lors appar estre.


Tradução Livre:


Após quinhentos anos contados não levados em conta,

Um que se tinha por não ser,

Do lado de Orion um destino estendido,

Castelo, príncipe morto então aparecer.


As interpretações dessa quadra eram nebulosas, com alguns a ligando a figuras históricas ressurgindo ou a eventos ocorrendo séculos após a época de Nostradamus. Para Edgar, no entanto, a passagem do tempo, os "quinhentos anos contados não levados em conta", ressoava com a persistente fascinação pela profecia ao longo das eras. A busca por um "que se tinha por não ser" poderia aludir a um conhecimento esquecido ou a uma forma de percepção subestimada. E o "destino estendido do lado de Orion" evocava a vastidão do tempo e do espaço, onde os eventos se desenrolam em uma escala que transcende a compreensão individual.

Edgar percebeu que a busca pela carta o havia levado a um ponto onde a linearidade do tempo parecia se dissolver. As diferentes formas de "visão" que havia encontrado não eram necessariamente previsões concretas do futuro, mas sim diferentes maneiras de se relacionar com o tempo – percebendo seus ciclos, suas irrupções inesperadas, suas ressonâncias históricas e suas manifestações intuitivas. A própria linguagem enigmática de Nostradamus parecia operar nessa mesma dimensão atemporal, permitindo que suas palavras fossem ressignificadas por diferentes épocas e culturas.

A Abadia de Kylemore, com sua história de amor e perda, de fé e contemplação, parecia personificar essa sincronia dos espectros do tempo. As lendas locais, as crenças populares e as profecias antigas se entrelaçavam na tapeçaria da experiência humana, cada uma buscando, à sua maneira, dar sentido ao mistério da existência e ao fluxo incessante do tempo. Edgar sentia que a chave para a "sabedoria" da carta talvez não estivesse em decifrar o futuro, mas em compreender a profunda conexão entre todas as formas de percepção do tempo que a humanidade havia buscado ao longo da história.

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