Plantando Sementes de Saber: A Universidade como Reparação no Vale
Na quietude de sua casa em Balneário Camboriú, a brisa marítima carregando o murmúrio distante das ondas, He Dantés contemplava o mapa do Vale do Contestado. As cidades, antes meros pontos geográficos, agora pulsavam com as histórias que Edgar havia desenterrado, com a memória viva que clamava por reconhecimento. A ideia de uma Feira da Alma Catarinense itinerante, abraçando a diversidade do estado, ganhava um contorno ainda mais significativo: a possibilidade de plantar sementes de saber onde a promessa do desenvolvimento semeou apenas dor e esquecimento.
"João," começou He Dantés em sua conversa imaginária, como se o amigo estivesse ali, compartilhando suas reflexões, "pensando no Contestado... a Universidade. Ela surge como um elo perdido, uma ferramenta poderosa de reparação que o Estado ainda pode oferecer. Vimos a força da tradição oral, a memória viva nas palavras dos mais velhos. Mas para que essa memória floresça e alcance as novas gerações, para que se transforme em conhecimento e ação, a Universidade é fundamental."
Ele gesticulou, visualizando o mapa. "Imagine em Papanduva, em Lebon Régis, em tantas outras cidades do Vale que não possuem uma instituição universitária própria como a UnC já estabelecida em outros polos. Construir ali um campus, um centro de saber dedicado à região, seria mais do que um investimento em educação. Seria um ato de reconhecimento da dívida histórica."
He Dantés ponderou sobre a natureza dessa reparação. "Não se trata apenas de construir prédios e oferecer cursos. Trata-se de criar um espaço onde a história do Contestado seja pesquisada com rigor, onde as vozes silenciadas sejam ouvidas e valorizadas. Cursos de história, antropologia, direito, serviço social... todos trabalhando juntos para desvendar as camadas desse passado complexo e para buscar formas de justiça."
Ele visualizou estudantes entrevistando os mais antigos, coletando suas memórias, transformando a tradição oral em arquivos vivos. Imaginou projetos de extensão universitária oferecendo assessoria jurídica às famílias que perderam suas terras, buscando formas de reconhecimento e reparação. Viu cursos de artes criando memoriais, performances teatrais, documentários que trouxessem à luz a humanidade das vítimas, rompendo com os rótulos de "fanáticos" e "criminosos".
"A Universidade, João," continuou He Dantés, sua voz carregada de convicção, "seria um farol de desenvolvimento verdadeiro, um contraponto àquele 'progresso' que trouxe a guerra e a exploração. Ela reteria talentos locais, formaria profissionais engajados com a realidade da região, impulsionaria pesquisas que valorizassem a cultura cabocla e buscassem soluções para os problemas sociais e econômicos persistentes."
Ele refletiu sobre a importância de plantar essa semente onde a ausência do Estado foi tão marcante. "A construção de uma universidade nessas cidades seria um símbolo tangível da presença do Estado, não como força repressora, mas como promotor de conhecimento, de justiça e de oportunidades. Seria um reconhecimento de que o 'desenvolvimento' que causou tanto sofrimento precisa ser substituído por um desenvolvimento humano, inclusivo e respeitoso com a memória."
He Dantés concluiu, o olhar fixo no horizonte. "A Feira da Alma Catarinense, com suas alas dedicadas a preservação da memória e cultura das cidades do Vale do Contestado, inspirado no livro enviado por um antigo prefeito de Curitibanos e demais prefeitos da região, pode ser o catalisador dessa reflexão, levando essa proposta para o debate público, mostrando o potencial transformador da educação e da memória na construção de um futuro mais justo para o Vale do Contestado. Plantar essas sementes de saber é um ato de esperança, um passo fundamental para finalmente reparar as feridas de um passado que não pode ser esquecido."
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