O Avesso do Legislativo: Quando a Perseguição Ocupa as Cadeiras do Povo
Viver a política de perto, muitas vezes, é testemunhar um enredo que desafia a própria lógica da moralidade pública. Quando olhamos para a atual composição das forças no parlamento, a pergunta que ecoa inevitavelmente é uma só: que tempos são esses?
A política institucional deveria, em tese, ser o espaço do debate de ideias, da representação popular e da busca pelo bem comum. Contudo, o que se observa na dança das cadeiras das suplências e das trocas partidárias na Câmara é, frequentemente, a ascensão do que há de mais lamentável nas relações humanas e públicas: a perseguição e a conveniência.
A engenharia partidária recente, que abre espaço na bancada do PL para novas figuras assumirem o mandato, desenha um cenário que beira o absurdo. Na moldura do parlamento, o cidadão se depara com uma ironia cruel. De um lado, assume uma cadeira quem, lá em 2016, utilizou o aparato judicial e a máquina eleitoral para processar e silenciar o livre debate por conta de uma simples pesquisa eleitoral na internet. Do outro, ganha espaço a figura do monitoramento sombrio, da espionagem e do cerceamento da privacidade.
O paradoxo se torna ainda mais agudo quando analisamos quem essas figuras vêm substituir. Elas não entram no vácuo; entram para ocupar o espaço deixado por aqueles que escolheram a traição — e não uma traição puramente ideológica, mas aquela que dói na pele por ter sido gestada "dentro de casa", no núcleo mais próximo das relações de confiança.
Ver a representação pública ser herdada por perseguidores, em substituição a traidores, é o sintoma mais claro de uma política adoecida. O legislativo não pode se transformar em um tabuleiro onde o cidadão comum se torna o alvo de retaliações e monitoramentos, enquanto as alianças internas se desfazem ao primeiro sinal de conveniência pessoal.
Mais do que uma crítica a nomes específicos, esse cenário nos convida a uma reflexão profunda sobre a qualidade da nossa democracia local. Se os representantes que assumem as vagas do povo são os mesmos que usam o poder para processar, espionar ou trair, o parlamento deixa de ser a casa do povo e passa a operar como um tribunal privado de interesses miúdos. Que tempos são estes, de fato, em que a coerência virou exceção e a perseguição virou crachá de autoridade? Cabe a nós, atentos, não apenas observar, mas cobrar que a dignidade volte a ocupar o lugar que hoje é tomado pelo clientelismo e pela revanche.
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