Para compreender essa "República idealizada" em contraste com a que se estabeleceu em 1889, é preciso analisar os pilares que sustentavam a visão e a atuação de Anita:
1. O Romantismo Revolucionário e a Causa Universal
Ao contrário da Proclamação de 1889 no Rio de Janeiro, que foi um arranjo de cúpula essencialmente frio, militar e oligárquico, o republicanismo de Anita e Giuseppe Garibaldi era profundamente influenciado pelo romantismo revolucionário europeu e pelo liberalismo radical do século XIX.
Para eles, a República não era apenas uma forma de governo ou a troca de um monarca por um presidente. Era uma causa humanitária de libertação dos povos contra a tirania absolutista e o imperialismo.
Essa convicção era tão forte que a levou a lutar pelo mesmo ideal em três cenários completamente diferentes: na Revolução Farroupilha (Brasil), na Guerra Civil Uruguaia e, mais tarde, na República Romana e nas guerras de unificação da Itália (o que lhe rendeu o título de "Heroína de Dois Mundos").
2. A Virtude Cívica em Armas (A Cidadania Ativa)
A imagem menciona a ausência de "virtude cívica" na República atual. Na visão de Anita, a cidadania era indissociável da ação concreta e do sacrifício pessoal pelo bem comum.
Anita não entendia a política como um espaço de negociações burocráticas ou de passividade. Para ela, defender a República significava engajamento total.
Durante a tomada e a posterior defesa de Laguna, ela participou ativamente dos combates navais carregando munições sob fogo cruzado, costurando uniformes para os soldados e transportando suprimentos. Na Batalha de Curitibanos, mesmo grávida e capturada pelas tropas imperiais, conseguiu enganar os guardas, fugir a cavalo e cruzar rios para se reincorporar às forças republicanas.
3. A Experiência de Laguna (A República Juliana de 1839)
A República Catarinense nasceu da expansão da Revolução Farroupilha rumo ao norte, buscando romper o bloqueio marítimo imposto pelo Império ao Rio Grande do Sul.
Quando as forças lideradas por David Canabarro e Giuseppe Garibaldi tomaram Laguna, a República foi proclamada diretamente da sacada da Câmara de Vereadores da cidade.
Anita, que já nutria internamente ideais de liberdade e descontentamento com o governo centralista do Império, viu naquela insurreição a materialização de uma sociedade livre das amarras coloniais e monárquicas que ainda sufocavam o Brasil.
O Contraste Histórico
O texto manifestado publicamente usa a figura de Anita justamente para fazer uma crítica à nossa atualidade. Enquanto a República realizada historicamente no Brasil tendeu a afastar o cidadão comum das decisões (mantendo o povo "bestializado") e a criar castas com privilégios de foro e vantagens corporativas, a República idealizada por Anita exigia um pacto ético onde o governante não estivesse acima do governado e onde a população fosse o motor vibrante da nação, e não uma plateia passiva.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.