O impacto prático dessa dinâmica reflete-se em danos estruturais profundos em duas frentes principais:
1. No Sistema de Saúde: O Limiar do Colapso
O Ministério da Saúde Pública de Cuba e agências humanitárias internacionais apontam que a falta de combustível atinge o coração da infraestrutura médica, gerando uma crise de mortalidade evitável.
Apagões em Hospitais de Referência: Cortar a energia desestabiliza unidades críticas. No Hospital Ramón González Coro (obstetrícia e neonatologia) e no Hospital Infantil William Soler (cardiologia pediátrica), médicos relatam ter de manter a respiração de recém-nascidos manualmente (recorrendo ao reanimador manual/Ambú) durante apagões prolongados, pois os geradores a diesel sofrem com a falta crônica de combustível ou falham por desgaste.
Maternidade e Infância em Risco: Mais de 32 mil gestantes foram classificadas em grupos de risco adicional devido à impossibilidade de realizar exames básicos, como ultrassons obstétricos. A falta de combustível para o transporte público paralisa médicos e especialistas — em várias províncias, até 85% dos neonatologistas moram fora do município onde trabalham, inviabilizando o deslocamento para partos de emergência.
Paralisação de Cirurgias e Transfusões: A fila para cirurgias eletivas já ultrapassa 96 mil pacientes. Além disso, todos os 46 bancos de sangue da ilha operam em capacidade mínima pela falta de reativos para triagem e insumos básicos (como seringas e bolsas de coleta), afetando diretamente tratamentos oncológicos e cirurgias de urgência.
Quebra na Cadeia de Frio: A produção nacional de medicamentos foi reduzida a quase zero. Sem eletricidade constante, há um risco severo e iminente de perda de lotes de vacinas e medicamentos biológicos que exigem refrigeração estrita.
2. Na Economia e Infraestrutura: Paralisia Sistêmica
A economia cubana, que já enfrentava forte recessão, perdeu seus eixos de sustentação com o bloqueio do fluxo logístico de combustíveis.
Colapso Elétrico e Industrial: Com os estoques de diesel e fuelóleo declarados oficialmente zerados em meados de maio, a rede elétrica nacional registra sucessivos colapsos totais. Em várias províncias orientais, os apagões passam de 24 a 48 horas seguidas. Fábricas de processamento de alimentos e indústrias de mineração (como a mineradora canadense Sherritt, em Moa) pausaram suas operações.
Crise Sanitária e Acúmulo de Lixo: Em Havana, o serviço de coleta de resíduos colapsou. Menos da metade dos caminhões de lixo operam por falta de diesel, fazendo com que toneladas de resíduos se acumulem nas esquinas da capital sob altas temperaturas, criando focos de vetores e ameaças de epidemias.
Crise de Abastecimento de Água: O impacto é direto: 84% dos sistemas de bombeamento de água de Cuba dependem de energia elétrica. Com os apagões, o fornecimento de água encanada parou. A dependência de caminhões-pipa (*pipas*) dobrou de tamanho em poucos meses, deixando mais de 1 milhão de cubanos dependentes dessa logística, que também é limitada pela escassez de combustível.
Paralisia Logística e Agrícola: Sem combustível para tratores e caminhões de distribuição, as safras agrícolas estragam nos campos, agravando a escassez de alimentos. No setor de aviação, o governo cubano parou de reabastecer aeronaves estrangeiras em seus aeroportos, forçando companhias internacionais (como as canadenses e russas) a suspender voos, o que praticamente sepultou a receita de turismo — vital para a captação de moeda estrangeira.
O Cenário de Curto Prazo: O envio pontual de petroleiros por aliados como a Rússia (que enviou 730 mil barris no final de março) funciona apenas como um paliativo de poucos dias para uma demanda diária de cerca de 100 mil barris. Sem uma flexibilização nas sanções de Washington ou uma rota alternativa estável, o país caminha para uma crise humanitária de proporções superiores ao "Período Especial" da década de 1990.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.