A tarde pedia atenção. As calçadas, que deveriam ser o refúgio seguro de quem anda a pé, amanheceram tomadas por aquela maré de plástico e estrutura pesada — as famosas "caravelas" de campanha que se multiplicam de ponta a ponta. Cada passo exigia um desvio cirúrgico para não tropeçar no improviso alheio ou na poluição visual que sufoca o concreto.
Foi bem no meio desse zigue-zague, diante de mais um cavalete trancando a passagem, que o comentário escapou. Entre um suspiro e outro com quem reclamava do cenário, soltei a imagem: pareciam uns exus postados ali, travando a rua.
Mas a reflexão veio no mesmo sopro, pedindo desculpa imediata ao pensamento. Afinal, que injustiça com os verdadeiros guardiões dos caminhos. Na tradição, na força de quem rege a encruzilhada, a energia é exatamente o oposto: é de abertura, de fluxo, de garantir que a vida e o trânsito das pessoas aconteçam sem embaraço. O exu abre a via; quem tranca a calçada é a desorganização humana, o capricho material que insiste em asfixiar o ir e vir coletivo.
Segui viagem rumo às Nações, desviando de plástico em plástico, pensando em como a cidade às vezes esquece de quem caminha a pé. No fim das contas, respeitar os caminhos é, antes de tudo, garantir que o pedestre consiga passar.
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