quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Rus de Kiev e a Disputa pelo Berço Histórico (Séculos IX a XIII)

A Rus de Kiev e a Disputa pelo Berço Histórico (Séculos IX a XIII)

A Rus de Kiev foi uma federação de tribos eslavas orientais que floresceu entre os séculos IX e XIII, tendo a cidade de Kiev como seu centro político, cultural e econômico. O estado ganhou forte coesão a partir de 988, quando o Príncipe Vladimir, o Grande (Volodymyr, em ucraniano), converteu-se ao cristianismo ortodoxo e adotou a religião como pilar de estado.

A Visão Russa (Continuidade Estatal): A historiografia tradicional russa e a narrativa do Kremlin enxergam a Rus de Kiev como o primeiro capítulo ininterrupto do Estado russo. Segundo essa perspectiva, após a destruição de Kiev pelos mongóis em 1240, a "chama" da soberania e do poder ortodoxo migrou para o norte, consolidando-se no Grão-Ducado de Moscou e, posteriormente, no Império Russo.

A Visão Ucraniana (Identidade Autônoma): Historiadores ucranianos enfatizam que as instituições, a cultura e o povo da Rus de Kiev permaneceram no próprio território ucraniano, evoluindo de forma distinta da Moscóvia. Kiev é vista não como a infância da Rússia, mas como a matriz direta da identidade, linguagem e soberania ucranianas.

A Fragmentação e as Dominações Estrangeiras (Séculos XIV a XVIII)

Com o colapso da Rus de Kiev frente às invasões mongóis, os caminhos políticos das populações que habitavam a região se dividiram drasticamente. Enquanto Moscou se expandia sob um modelo centralizador e autocrático no leste, o território ucraniano tornou-se um ponto de encontro e disputa entre grandes potências continentais:

Comunidade Polaco-Lituana (Polônia-Lituânia): A maior parte das terras ucranianas ficou sob a administração e influência da Coroa Polonesa e do Grão-Ducado da Lituânia. Esse período introduziu elementos culturais ocidentais, o direito europeu, a arquitetura barroca e a Igreja Greco-Católica Ucraniana (que mantém os ritos orientais, mas reconhece a autoridade do Papa).

A Fronteira Cossaca: No sul e leste, ao longo das estepes do rio Dnieper, organizou-se uma sociedade de guerreiros livres conhecidos como Cossacos (o Hetmanato Cossaco). Eles desenvolveram uma forte tradição de autonomia local e democracia militar, tornando-se um símbolo central do nacionalismo ucraniano.

O Império Austro-Húngaro: Na região ocidental da Ucrânia (Galícia/Halychyna, com centro em Lviv), o domínio da dinastia Habsburgo permitiu um ambiente cultural onde a língua e a literatura ucranianas conseguiram se desenvolver com relativa liberdade no século XIX.

A Russificação no Império Tsarista

À medida que o Império Russo se expandia para o oeste nos séculos XVII e XVIII — absorvendo o Hetmanato Cossaco e partilhando a Polônia —, Moscou iniciou um processo sistemático de assimilação cultural e política do território ucraniano:

A Tese da "Pequena Rússia" (Malorossiya): A administração imperial passou a retratar os ucranianos como "pequenos-russos", uma subcategoria da grande nação russa, negando a existência de um povo ou idioma ucraniano independente.

Proibições Linguísticas: Atos imperiais, como o Decreto de Valuyev (1863) e o Ukaz de Ems (1876), proibiram expressamente a publicação de livros, jornais, textos educativos e até peças de teatro em língua ucraniana, decretando que "o idioma ucraniano nunca existiu, não existe e não existirá".

Essa trajetória histórica fragmentada gerou duas evoluções socioculturais distintas: de um lado, a consolidação de uma autocracia imperial centralizada em São Petersburgo e Moscou; de outro, a formação de uma identidade ucraniana moldada pelo pluralismo de influências europeias, pela resistência cossaca e pela preservação de sua cultura nativa.

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