A narrativa sobre a origem dos Estados russo e ucraniano remonta à Rus de Kiev, federação medieval reivindicada por ambos os países como o seu berço cultural e linguístico. Ao longo dos séculos seguintes, enquanto a Rússia se consolidava como um vasto império autocrático, o território ucraniano foi dividido e influenciado por diferentes potências — incluindo a Comunidade Polaco-Lituana, o Império Austro-Húngaro e o próprio Império Russo. Esta divergência na trajetória política e sociocultural moldou duas visões de mundo distintas, fundamentais para compreender as tensões do presente.
1. A Rus de Kiev: Berço Compartilhado e Narrativas em Conflito
Entre os séculos IX e XIII, a Rus de Kiev reuniu tribos eslavas orientais sob uma confederação política com centro em Kiev. A conversão do Príncipe Vladimir, o Grande, ao cristianismo ortodoxo em 988 estabeleceu os alicerces culturais, alfabéticos e religiosos da região.
Após a destruição de Kiev pelas invasões mongóis em 1240, os caminhos historiográficos se dividiram:
A Visão de Continuidade Estatal (Moscou): A historiografia imperial e soviética retrata a trajetória da Rus de Kiev como uma linha contínua que migrou para o norte, encontrando no Grão-Ducado de Moscou e no Império Russo a sua sucessão legítima.
A Visão da Matriz Autônoma (Kiev): A tradição ucraniana sustenta que as instituições, a língua e as tradições do povo da Rus permaneceram em seu território de origem, evoluindo de forma independente em relação à Moscóvia.
2. A Manta de Retalhos: Influências Ocidentais e a Identidade Cossaca
Com o vácuo de poder deixado pelos mongóis, as terras ucranianas não se isolaram. A inclusão da maior parte do território na Comunidade Polaco-Lituana introduziu o direito europeu, valores renascentistas e o surgimento da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Mais ao oeste, na Galícia, o domínio do Império Austro-Húngaro no século XIX garantiu um espaço de florescimento para a imprensa e a literatura ucranianas.
Simultaneamente, nas estepes do sul, organizou-se o Hetmanato Cossaco — uma sociedade militarizada de homens livres com forte tradição de autonomia, descentralização e democracia assemblear. O Cossaco tornou-se o símbolo central do nacionalismo e do espírito de resistência ucraniano.
3. A Russificação Imperial e o Apagamento Cultural
À medida que o Império Russo expandiu suas fronteiras para o oeste nos séculos XVII e XVIII, absorvendo o Hetmanato e partilhando a Polônia, Moscou iniciou uma política ativa de assimilação:
A Tese da "Pequena Rússia": Os ucranianos passaram a ser oficialmente classificados como "pequenos-russos" (malorossy), retratados como um ramo regional do povo russo, e não como uma nação distinta.
Proibições Linguísticas: Instrumentos como o Decreto de Valuyevb (1863) e o Ukaz de Ems (1876) baniram a impressão de livros, materiais pedagógicos e manifestações culturais em língua ucraniana.
Conclusão
A história da região demonstra que a Ucrânia não é um subproduto do Estado russo, mas o resultado de uma síntese complexa entre a herança da Rus de Kiev, a resistência cossaca e séculos de trocas culturais com o Leste e o Oeste europeus. O conflito contemporâneo sobre a memória histórica reflete a recusa de uma nação em ver sua identidade apagada por um modelo autocrático que insiste em enxergar o passado compartilhado como justificativa para o domínio do presente.
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