Existe uma armadilha recorrente na gestão pública, na formulação de políticas e na mediação de grandes debates contemporâneos: a crença ingênua de que toda consulta aberta produz sabedoria coletiva. Movidos por um ideal democrático de inclusão, insistimos em abrir o microfone e convocar a praça pública para opinar sobre temas de extrema gravidade. O resultado diário, contudo, tem sido o desgaste de quem busca seriedade e a validação do absurdo.
O problema não reside no princípio da escuta, mas na assimetria de compromisso. Quando o tema em tela exige responsabilidade histórica, profundidade técnica e sensibilidade — como a geopolítica do Oriente Médio —, o debate aberto sem critérios atrai dinâmicas profundamente nocivas. De um lado, estão aqueles para quem a pauta é existência, memória e sobrevivência; do outro, surge uma parcela ruidosa que enxerga o conflito apenas como um emblema ideológico, um pretexto de torcida para defender algo indefensável dentro ou fora do país.
Ao insistir no convite irrestrito à participação, comete-se um erro tático de alto custo. Quando a leviandade ganha o mesmo palco reservado ao pensamento estruturado, o dano não é neutro:
Esvaziamento do espaço sério: A pessoa com repertório, que acompanha o debate com gravidade, se afasta ao perceber que sua contribuição será soterrada por superficialidades.
Nivelamento por baixo: A proliferação de declarações absurdas passa a ser tratada como "apenas mais um ponto de vista", normalizando a falta de compromisso moral e intelectual.
Exaustão da mediação: Consome-se uma energia preciosa tentando filtrar o ruído de quem não quer construir, mas apenas vencer uma disputa narrativa.
A verdadeira maturidade na condução de debates complexos não consiste em estender a palavra a todos indistintamente, mas em saber delimitar as instâncias de escuta. A consulta pública irrestrita funciona para o diagnóstico de demandas cotidianas de uma comunidade; para temas de alta complexidade, a legitimidade da construção exige filtros claros de entrada.
Espaços de formulação crítica não podem operar como caixas de ressonância do senso comum. Se a intenção é produzir análises sóbrias e saídas viáveis, o movimento correto não é perguntar à multidão o que ela acha, mas ir ao encontro de quem detém conhecimento de causa, responsabilidade com os fatos e compromisso ético com a verdade. Salvar o debate público exige, antes de tudo, parar de oferecer palco a quem só tem ruído a oferecer.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.