O conceito tradicional de coronelismo, historicamente enraizado nas grandes propriedades rurais e no controle da terra pelo latifúndio, passou por profundas mutações no Brasil contemporâneo. Em polos de desenvolvimento acelerado e forte valorização fundiária, como Balneário Camboriú, essa estrutura de poder se reinventou. Longe de desaparecer, o fenômeno adaptou-se à economia urbana, metamorfoseando-se em um coronelismo urbano e imobiliário.
Nesse novo arranjo, o domínio não se exerce mais sobre o trabalhador rural ou sobre os rincões isolados, mas sobre a gestão do solo urbano, as diretrizes de zoneamento e os grandes fluxos de capital financeiro e imobiliário.
A metamorfose do poder: Da terra rural ao solo urbano
Se no passado o "coronel" garantia sua hegemonia através do controle do voto de cabresto e da posse da terra agricultável, hoje as oligarquias municipais e regionais operam na intersecção entre o setor público e a especulação imobiliária.
Em cidades litorâneas impulsionadas pelo turismo de massa e por arranjos de arranha-céus bilionários, a terra urbana tornou-se o ativo mais valioso. Prefeituras e câmaras de vereadores frequentemente funcionam como engrenagens de redes de influência consolidadas. Nestes espaços, o poder político e o poder econômico fundem-se de maneira quase indistinta, garantindo que as decisões legislativas e executivas favoreçam interesses corporativos restritos em detrimento de um planejamento urbano democrático e sustentável.
Dinastias, alianças e pragmatismo político
A perpetuação desse modelo oligárquico apoia-se em pilares bem estruturados:
Dinastias familiares: A política local é frequentemente gerida por clãs que mantêm o controle de mandatos eletivos e nomeações estratégicas ao longo de décadas.
Alianças pragmáticas: Partidos políticos e ideologias tornam-se secundários diante do objetivo maior de assegurar o controle sobre a máquina pública e o direcionamento de obras de infraestrutura.
Financiamento de campanhas: O capital gerado pela indústria da construção civil e pelo turismo atua como principal combustível para a manutenção dessas estruturas de poder, criando uma relação de dependência mútua entre governantes e os grandes detentores de capital imobiliário.
O impacto na cidadania e no espaço urbano
Essa configuração de poder gera graves distorções no desenvolvimento das cidades litorâneas. A priorização de investimentos voltados quase exclusivamente para a valorização de orlas e a verticalização extrema tensiona a infraestrutura urbana, pressiona a mobilidade e encarece o custo de vida, expulsando a população de menor renda para as periferias ou municípios vizinhos.
Além disso, a soberania popular corre o risco de ser esvaziada quando o debate público sobre o futuro da cidade é substituído por acordos de cúpula e tecnocracias a serviço de interesses privados.
Conclusão
O caso de Balneário Camboriú e de outros polos litorâneos exemplifica como o autoritarismo e o mando político local podem se modernizar sem perder sua essência. O coronelismo urbano demonstra que a concentração de poder sobre o espaço geográfico continua viva, adaptada à era da especulação imobiliária e dos megaprojetos urbanos.
Superar esse cenário exige não apenas maior transparência na gestão pública, mas um redesenho da participação cidadã na formulação das leis de uso e ocupação do solo, devolvendo a cidade aos seus habitantes.
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