quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Acordo Sykes-Picot é, possivelmente, o documento mais controverso da história moderna do Oriente Médio, pois desenhou as fronteiras de Estados que conhecemos hoje (como Iraque, Síria e Líbano) sem considerar as divisões étnicas ou religiosas locais.

1. O Que Foi o Acordo?

Oficialmente conhecido como o Acordo Ásia Menor, foi um pacto secreto assinado em maio de 1916 entre o diplomata britânico Mark Sykes e o francês François Georges-Picot, com o aval da Rússia czarista.
O objetivo era simples: decidir como o espólio do Império Otomano (que estava em decadência e aliado à Alemanha) seria dividido entre as potências europeias após a vitória na Primeira Guerra Mundial.

2. A Divisão do Mapa (As Zonas de Influência)

O mapa foi dividido basicamente em cores:

Zona Azul (França): Controle direto sobre o litoral do Líbano e da Síria, e influência sobre o interior da Síria (Damasco, Aleppo) e a região de Mossul (norte do Iraque).

Zona Vermelha (Grã-Bretanha): Controle direto sobre o sul da Mesopotâmia (Bagdá e Basra, no atual Iraque) e os portos de Haifa e Acre (para garantir acesso ao Mediterrâneo).

Zona Marrom (Administração Internacional): A região da Palestina (incluindo Jerusalém) deveria ter uma administração internacional, devido à sua importância religiosa para diversas nações.

3. A Grande Contradição (A "Punhalada pelas Costas")

O maior problema do Sykes-Picot não foi apenas o seu conteúdo, mas a sua existência simultânea com outras promessas:

Aos Árabes (1915): Os britânicos (via Correspondência McMahon-Hussein) prometeram ao Xerife de Meca que, se ele liderasse uma revolta contra os turcos, ganharia um Grande Reino Árabe Independente.

Aos Judeus (1917): Pouco depois, a Declaração Balfour prometia um "Lar Nacional" na Palestina.

O Segredo: O Sykes-Picot negava a independência árabe plena, pois transformava a região em colônias ou protetorados europeus disfarçados.

4. Como o segredo foi revelado?

O acordo era para permanecer secreto, mas em 1917 ocorreu a Revolução Russa. Os Bolcheviques, ao assumirem o poder, encontraram cópias do acordo nos arquivos czaristas e as publicaram nos jornais Izvestia e Pravda para expor a "ganância imperialista" dos aliados.

Consequência: A revelação causou uma onda de choque e indignação entre os líderes árabes, que perceberam que estavam lutando por uma independência que já havia sido negociada e dividida entre Londres e Paris.

5. O Legado Atual

O termo "Sykes-Picot" ainda é usado hoje como símbolo de intervenção externa desastrosa.

Fronteiras Artificiais: O acordo criou fronteiras que separaram tribos e uniram grupos rivais dentro dos mesmos países, o que é frequentemente citado como a raiz de muitos conflitos atuais na Síria e no Iraque.

Fim do Pan-Arabismo: O sonho de uma nação árabe unida foi fragmentado em estados sob mandato europeu, gerando um ressentimento profundo contra o Ocidente.

Em resumo: Enquanto a Declaração Balfour focava na questão judaica, o Sykes-Picot foi o mecanismo que garantiu que o controle efetivo da região ficasse nas mãos da França e da Inglaterra, atropelando o nacionalismo árabe que estava surgindo.

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