sábado, 28 de fevereiro de 2026

Da Vizinhança Forçada e do Direito ao Desprezo

Da Vizinhança Forçada e do Direito ao Desprezo

Dizia um filósofo de ocasião que a pátria é uma família que não escolhemos, mas que nos cobra o aluguel com a pontualidade dos usurários. Ora, se Santa Catarina e Brasília dividem o mesmo teto federativo, é de se esperar que haja, no mínimo, o respeito que os estranhos votam uns aos outros numa hospedaria de estrada. Mas quando o hóspede do Planalto resolve furar a parede para espiar o banho da província, a convivência deixa de ser política e passa a ser patologia.

I. O Pragmatismo do "Cada um no seu Quadrado"

O equilíbrio pragmático, meu caro, não nasce do amor — que é sentimento volúvel e dado a traições — mas da conveniência mútua. Para não separar, é preciso que o Estado Federal aprenda a virtude da indiferença.

A Indiferença como Respeito: O governo que muito nos ama acaba por nos sufocar; o que muito nos vigia acaba por nos corromper. O pragmatismo exige que o Leviatã seja um burocrata entediado, preocupado com o preço do feijão e a largura das estradas, e absolutamente desinteressado pelo que o catarinense murmura entre quatro paredes ou pela forma como dispõe de seus afetos.
 
A Secessão do Olhar: Se não podemos mover as montanhas de Santa Catarina para longe do mapa brasileiro, podemos, ao menos, exigir que Brasília use vendas nos olhos. O "equilíbrio" é esse: eu lhe entrego o imposto, e você me entrega o meu silêncio.

II. A Dignidade como Propriedade Privada

A "prostituição ao governo" de que tanto nos queixamos só ocorre quando permitimos que o Estado se sinta sócio da nossa honra. O pragmatismo sugere que tratemos a dignidade como um cofre de banco: o Estado guarda o prédio (o território), mas só o cidadão tem a chave da caixa forte.

A Ilusão da União: Se a união é "indissolúvel" por lei, que seja ao menos "distante" por costume. Nada é mais insuportável que uma união onde um dos cônjuges insiste em ler o diário do outro para "garantir a fidelidade".

III. O Perigo da Estética da Pureza

Mas, cuidado com os entusiastas da separação total! A ironia machadiana nos adverte: quem busca a pureza absoluta na política acaba por encontrar apenas novas formas de tirania. Separar-se por causa da espionagem sexual é um motivo nobilíssimo, digno de uma tragédia grega. Porém, o pragmatismo nos sopra ao ouvido que o novo país também teria seus espiões, talvez mais eficientes por serem nossos vizinhos de muro.

"Melhor um espião distante, a quem podemos enganar com o nosso silêncio, do que um espião vizinho, que conhece o cheiro do nosso café e o tom da nossa voz."

Conclusão: O Armistício das Aparências

O equilíbrio para não separar reside, afinal, numa hipocrisia salutar. O Estado finge que governa um povo unido, e o povo finge que obedece a um Estado soberano, desde que — e este "desde que" é a alma do negócio — o Estado nunca ouse atravessar o umbral da porta.

A relevância da nossa luta contra a "prostituição estatal" é manter esse limite bem traçado. Santa Catarina fica no Brasil, sim, mas fica como uma dama que aceita o convite para o baile, mas não entrega a chave do seu quarto ao mestre de cerimônias. A dignidade vale a briga; a separação vale a ameaça; mas o equilíbrio... ah, o equilíbrio vale a paz de ser deixado em paz.


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