Dizem as boas línguas — e as más, que são sempre mais lidas — que o Estado, esse imenso Leviatã de cartola e papel selado, resolveu agora espreitar pelo buraco da fechadura. Não satisfeito em devorar-nos o dízimo da labuta diária, parece haver tomado gosto pela alcoviteira arte da espionagem doméstica. Fala-se, entre sussurros e indignações de gabinete, que a nossa dignidade foi posta em praça pública, como mercadoria de baixo calão, numa espécie de prostituição administrativa onde o Governo Federal atua, ora como cliente insaciável, ora como o próprio proprietário do lupanar político.
Eis que surge, de entre as brumas de Santa Catarina, o brado da secessão. "Separemos!", clamam os mais fervorosos, alegando que a honra de um povo não pode coabitar com o olho de vidro de Brasília, que tudo vigia e tudo corrompe em nome de uma ordem que ninguém mais reconhece.
Convenhamos, a tese é sedutora. Se o contrato social, aquele papel amarelado que Rousseau nos legou, tornou-se um contrato de lenocínio, por que haveríamos de manter as bodas? A dignidade, essa dama de fino trato que não aceita ser observada em trajes menores, sente-se, por certo, ofendida. Ver a intimidade de um cidadão convertida em Kompromat — essa palavra bárbara que cheira a poeira e traição — justificaria, em qualquer tribunal de almas, o divórcio imediato. Afinal, quem haveria de condenar o catarinense que, ao ver sua alcova invadida pelo aparato estatal, decide erguer uma cerca nova e mudar o sobrenome da pátria?
Mas, ah!, a ironia das coisas humanas...
Separar-se por causa da dignidade é um gesto nobre, quase shakesperiano. Mas a geografia, essa senhora ranzinza, e a política, essa viúva alegre, costumam zombar das nossas pretensões morais. Se Santa Catarina se fizesse ilha, livre do olhar lúbrico do centro, quem nos garantiria que os novos vigias, agora com sotaque da terra, não haveriam de sentir a mesma curiosidade pelas nossas misérias privadas? O poder, meu caro leitor, é como o vício: muda de endereço, mas não de costume.
Portanto, embora a exploração e a espionagem sexual do Estado sejam motivos de sobra para que qualquer homem de bem sinta o desejo de rasgar o mapa, a prudência nos adverte com um sorriso amarelo. A separação seria o remédio heroico para uma enfermidade incurável. Justifica-se o desejo, sim; compreende-se a náusea perante a "prostituição" federal. Mas, ao fim do dia, temo que trocaríamos uma tirania de proporções continentais por uma vigilância de província.
Fiquemos, pois, com a nossa indignação e o nosso território. É preferível sofrer as insolências de um grande império a descobrir que, no novo e pequeno país, o olho da fechadura continua o mesmo, apenas o carpinteiro mudou.
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