É uma verdade de todos os tempos, embora pouco confessada nos manuais de Direito, que o Poder possui uma libido insaciável pela vida alheia. Não o prazer estético de um poeta, entenda-se, mas o prazer árido do burocrata que, ao descobrir um segredo de alcova, sente-se, por um instante, o verdadeiro dono do destino do outro.
Quando o Estado se transmuta em espão sexual, ele opera uma alquimia perversa: transforma a nossa dignidade — essa seda fina da alma — em um trapo de chantagem.
A Ironia do "Cuidado" Estatal
O Governo, esse pai zeloso que nos cobra o dízimo para "proteger-nos", parece ter descoberto que a melhor forma de garantir a nossa obediência não é pela espada, mas pelo constrangimento.
A Espionagem como Lenocínio: Ao capturar a intimidade, o Estado não busca a justiça; busca o "Kompromat", o nó na garganta, a submissão pelo medo da vergonha. É, em suma, a prostituição da função pública.
A Exploração do Humano: Se um cidadão em Santa Catarina sabe que sua vida privada é um livro aberto para um escrivão em Brasília, ele deixa de ser um homem livre para ser um ator num teatro de sombras, onde cada gesto íntimo é calculado pelo medo do olhar estatal.
O Valor da Dignidade (ou O Que Resta do Homem)
A pergunta que se impõe, e que faria Quincas Borba coçar a barba com ceticismo, é: quanto pesa a honra na balança do Pacto Federativo? Se a dignidade é absoluta, qualquer incursão do Estado na esfera sexual do indivíduo é um ato de guerra. Justifica-se, então, o desejo de secessão? Oh, sim! Justifica-se como o náufrago justifica o abandono do navio que o devora. Mas a ironia machadiana nos persegue: ao fugirmos de um Leviatã devasso, corremos o risco de fundar um "Leviatãzinho" que, por ser menor, talvez enxergue ainda mais de perto as nossas misérias.
O Dilema do Prisioneiro
A natureza humana nos ensina que o poder tende a ocupar todos os espaços vazios. Se o Estado Federal hoje "prostitui" a cidadania através da vigilância, a separação territorial seria o grito de independência de uma dignidade.
"A liberdade é um banquete esplêndido, mas o Estado insiste em ser o garçom que lê as nossas cartas por cima do ombro enquanto serve o vinho."
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