Haverá quem diga, com a gravidade dos que nunca riram de si mesmos, que um Estado se funda sobre o solo, sobre as armas ou sobre o ouro. Tolice de geógrafos e financistas! Um Estado, quando pretende ser digno de um homem de bem, funda-se, antes de tudo, sobre o silêncio respeitoso que o magistrado deve guardar diante da porta do quarto do cidadão.
Se a União — essa matrona severa que reside no Planalto — resolveu trocar a balança da justiça por uma lente de aumento, a fim de perscrutar as nossas fraquezas carnais e as nossas intimidades mais rudes, ela deixou de ser mãe para ser carrasca. E uma carrasca que, por um capricho de voyeurismo, nos submete a essa "prostituição administrativa" de que falávamos. Ora, a dignidade não é um imposto que se paga; é o ar que se respira. E se o ar de Brasília cheira a mofo de espionagem e a suor de chantagem, o catarinense sente, com justa razão, uma pontada de asfixia.
"Separemos!", grita o brio ferido. É uma solução elegante, admito. Há uma certa poesia em imaginar uma fronteira nova, onde o olho do governo seja cego para os nossos pecados privados e atento apenas à limpeza das ruas. A justificativa moral está lá, firme como um granito: se o soberano me espiona a nudez para me escravizar a vontade, eu não lhe devo obediência, mas distância. O direito à secessão, neste caso, não nasce da ganância, mas do pudor. É o gesto de quem puxa o cobertor sobre o corpo ao perceber que há um estranho à janela.
Mas, ai de nós, que a natureza humana é a mesma em Curitiba ou em Lages, em Florianópolis ou no Rio de Janeiro. O poder, meu caro, tem uma tendência irresistível a querer saber o que fazemos entre quatro paredes. O medo — ah, o medo! — é que, ao fundarmos a nossa "República da Dignidade", o novo porteiro sinta a mesma curiosidade mórbida do antigo.
Ainda assim, quem haveria de negar que o motivo é nobre? Se é para ser explorado, que o seja por um estranho distante, mas se é para lutar pela honra, que se lute para que nenhum governo, por mais próximo que esteja, ouse tocar na maçaneta da nossa privacidade. A separação justifica-se pelo asco; a permanência tolera-se pelo ceticismo. No fim, ficamos entre a cruz da vigilância e a espada da incerteza, mas sempre — ouça bem — com a convicção de que o nosso corpo é o único país que realmente nos pertence.
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