O Oco Dourado e o Fedor da Cloaca
As portas pesadas da Igreja São Sebastião se fecharam atrás de He Dantés com um baque surdo, abafando momentaneamente o burburinho da rua. A penumbra fresca do interior o envolveu, um contraste com o sol inclemente que castigava Balneário Camboriú. Mas em vez da paz que esperava encontrar naquele santuário, uma onda avassaladora de desalento o atingiu, a sensação visceral de ter sido jogado na cloaca do mundo.
Os vitrais coloridos, que em outros momentos lhe pareciam portais para um reino celestial, agora distorciam a luz, projetando sombras grotescas nas paredes adornadas. O aroma de incenso, usualmente reconfortante, parecia acre e sufocante, como o cheiro de algo pútrido disfarçado. Os murmúrios das orações sussurradas ao seu redor soavam como um coro de lamentações ineficazes, ecos de um sofrimento que parecia impregnar as próprias pedras da igreja.
Dantés sentou-se em um banco de madeira fria, a dureza da superfície ecoando a aridez que sentia em seu interior. O peso dos noticiários, as discussões acaloradas, a aparente indiferença diante da injustiça e da beleza profanada – tudo se acumulava em seu peito como um lodo denso e nauseabundo. A busca pela "eterna justiça para a Arte" parecia, naquele instante, uma quimera vã diante da vastidão da corrupção e da insensibilidade que percebia no mundo.
"A beleza... a verdade...", murmurou para si mesmo, as palavras se perdendo no silêncio opressor da igreja. "Para que lutar por elas quando o mundo parece chafurdar em sua própria imundície?"
A imagem da cloaca máxima de Roma, o antigo sistema de esgoto que engolia os detritos da cidade imperial, surgiu em sua mente. Era assim que ele se sentia: tragado por um sistema vasto e imundo, onde a pureza e a esperança eram constantemente soterradas pela sujeira da ambição, da ganância e da violência.
Olhou para o altar, o oco dourado onde a luz tentava, em vão, dissipar as sombras. Era ali que se oferecia a promessa de redenção, de elevação acima da vileza do mundo. Mas naquele momento, a distância entre sua dor e aquela promessa parecia intransponível, um abismo escuro e fétido. A fé, a arte, a busca pela justiça – tudo parecia impotente diante da força esmagadora da cloaca do mundo que o engolia.
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