sexta-feira, 25 de abril de 2025

O Ovo da Discórdia no Parlamento Sombrio

O Grande Salão de Obsidiana do Parlamento Vampírico rangia sob o peso de séculos de segredos e sussurros coagulados. Lá fora, a nevasca siberiana que inexplicavelmente assolava Balneário Camboriú em pleno outono tropical (um fenômeno que nem mesmo os vampiros mais antigos conseguiam explicar, atribuindo-o a alguma perturbação astral causada por um reality show de influenciadores digitais) pintava o mundo de um branco espectral. Dentro, a decoração gótica, com suas gárgulas carrancudas e tapeçarias desbotadas retratando cenas de caça medievais, contrastava ironicamente com a discussão acalorada que fervilhava.

A Presidente Carmilla Sangrenta, uma vampira de elegância gélida e paciência notoriamente curta, batia seu cetro de ébano cravejado de rubis na mesa ancestral. O som ecoava pelo salão, silenciando momentaneamente o burburinho de vozes guturais e sibilantes.

"Nobres Membros da Eterna Noite!", sibilou Carmilla, seus olhos vermelhos faiscando de impaciência. "Retomemos a discussão sobre a famigerada... 'Ponte Acadêmica'. Lord Valdemar, por favor, continue sua apresentação."

Lord Valdemar Noitesternas, um vampiro ancião com uma barba branca que parecia feita de teias de aranha e uma paixão por reformas que beirava a heresia para alguns, pigarreou levemente. "Como eu estava expondo, prezados colegas das trevas, o projeto 'Ponte Acadêmica' representa uma oportunidade singular de modernizar nossas fontes de financiamento. Através da concessão de naming rights a instituições acadêmicas e empresas..."

De repente, um riso cavernoso interrompeu Valdemar. Era Barão Béla Obscuro, um vampiro corpulento com uma predileção por casacas de veludo roxo e uma visão política tão estreita quanto um caixão lacrado.

"Alto lá com essa modernidade toda, Lord Valdemar!", exclamou Béla, sua voz ecoando com um humor sombrio que lembrava as piadas de Érico Veríssimo sobre políticos provincianos. "Estamos às vésperas da Páscoa! Uma data sagrada para nós, que apreciamos um bom... ovo!"

Carmilla suspirou, massageando as têmporas pálidas. "Barão Béla, por favor. Estamos discutindo uma proposta de financiamento crucial para..."

"Crucial para quê?", interrompeu Béla, gesticulando dramaticamente com uma mão adornada por anéis de caveiras. "Para encher a cabeça de nossos jovens notívagos com ideias subversivas sobre 'igualdade' e 'integração com os mortais'? Francamente, Valdemar, às vezes sua ânsia por 'progresso' me lembra aqueles morcegos tontos que tentam voar em linha reta depois de beber demais!"

Um murmúrio divertido percorreu alguns dos membros mais jovens do Parlamento. Lord Valdemar tentou manter a compostura. "Mas, Barão, o projeto prevê parcerias com empresas... inclusive empresas de chocolate! Imagine, a 'Cripta de Estudos Vampíricos Cacau Cru' ou a 'Biblioteca Sanguinolenta Garoto Mordaz'! Isso nos traria recursos substanciais!"

Béla arregalou os olhos vermelhos, sua atenção finalmente capturada. "Empresas de chocolate, dizeis? Naming rights para... ovos?" Sua mente parecia trabalhar lentamente, como um mecanismo enferrujado. "E qual seria o benefício concreto para um vampiro de linhagem como eu?"

"Bem", explicou Valdemar, tentando conter um sorriso hesitante, "nos moldes do que He Dantés observou na Suíça, poderíamos implementar programas que permitam visitas exclusivas às fábricas de chocolate para nossos membros, aquisição de produtos... e até mesmo a criação de obras de arte e literatura em homenagem à Páscoa, em parceria com as escolas e universidades humanas, tudo com o apoio financeiro dessas empresas."

Os olhos de Béla brilharam com uma intensidade renovada, quase infantil. "Visitas a fábricas de chocolate? E... chocolates grátis?"

"Com descontos significativos e potenciais parcerias para eventos temáticos", confirmou Valdemar. "Pense no potencial de naming rights para concursos de poesia com o tema 'A Doce Escuridão da Páscoa' ou esculturas de chocolate representando nossos ancestrais!"

Carmilla aproveitou a brecha. "Barão Béla, veja bem. Este projeto não se limita a financiar estudos acadêmicos abstratos. Ele pode trazer benefícios tangíveis para todos nós, especialmente considerando sua... afeição pela data."

Béla coçou o queixo pontudo, pensativo. "Hummm... esculturas de chocolate de mim mesmo... 'O Barão Béla Obscuro: Uma Mordida de Puro Prazer'... Não soa totalmente desprovido de mérito." Ele lançou um olhar desconfiado para Lord Valdemar. "Mas e quanto aos humanos envolvidos? Serão devidamente... supervisionados?"

"Absolutamente", assegurou Valdemar. "As parcerias seriam cuidadosamente negociadas, garantindo a discrição e a segurança de nossa espécie. As visitas às fábricas seriam em horários especiais, e a participação da comunidade escolar e acadêmica seria focada na criação artística, sem expor nossa existência."

Um vampiro jovem, com óculos redondos e uma pilha de pergaminhos à sua frente, chamado Vladmir, levantou a mão timidamente. "E quanto ao potencial de naming rights para o próprio 'BC no Mundo', como o mortal Dantés mencionou? Poderíamos ter a 'Residência Artística Conde Drácula' ou a 'Bolsa de Estudos Rainha Sangrenta' para intercâmbios culturais!"

A ideia pareceu despertar um interesse genuíno em vários membros, que começaram a murmurar sobre o prestígio de ter seus nomes associados a iniciativas culturais.

Béla, no entanto, ainda estava fixado em sua prioridade. "Mas e o ovo? O ovo de Páscoa? Se vamos fazer parceria com essas empresas de chocolate, qual será o nosso quinhão? Porque, nessa Páscoa", ele bateu o punho na mesa com uma determinação surpreendente, "não passa nada! Meu ovo é sagrado!"

Carmilla suspirou novamente, mas desta vez havia um leve traço de divertimento em seus lábios pálidos. "Barão Béla, tenha certeza de que o potencial para aquisição de... ovos de chocolate... será devidamente contemplado nas negociações. Afinal, um Parlamento faminto não é um Parlamento produtivo."

A discussão prosseguiu, com os vampiros debatendo os detalhes da "Ponte Acadêmica" e suas ramificações pascais. Lord Valdemar tentava explicar os benefícios de longo prazo para a pesquisa e a cultura vampírica, enquanto Barão Béla se concentrava fervorosamente nas implicações para seu estoque pessoal de chocolate. A sessão parlamentar, como tantas outras, era uma mistura peculiar de arcaísmo e tentativas hesitantes de modernidade, tudo sob o olhar frio das gárgulas e o som abafado da nevasca lá fora, ilustrando, à maneira sombriamente humorística de Érico Veríssimo, a eterna luta entre o progresso e os apetites mais... elementares.



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