sexta-feira, 25 de abril de 2025

Jardim de Witmar

Ecos da Bobina na BR-101

O sol da manhã rasgava as nuvens esparsas enquanto o carro de Lucas cortava a BR-101, deixando para trás a imensidão verde da Rota dos Cânions. Dias de folga explorando as profundezas da natureza catarinense haviam aguçado seu olhar de produtor audiovisual, uma paixão que a vida como policial em Grão Pará, por mais que amasse sua cidade natal, nem sempre saciava. "Uma pena não ter um curso de Cinema bom em Balneário", pensou, a saudade das aulas e das discussões teóricas apertando o peito.

No banco do passageiro, Ana, uma amiga jornalista que o acompanhara em parte da viagem, folheava um livro. "Pensativo?", ela perguntou, sem tirar os olhos das páginas.

"Só divagando sobre como a gente filma as coisas, sabe? A luz, o enquadramento... Estava lembrando daquele papo sobre o Tesla outro dia. Que cara genial e quanta injustiça!"

Ana fechou o livro, curiosa. "Ah, sim! As invenções e as patentes roubadas, não é?"

Lucas assentiu, aproveitando a deixa para revisitar o tema que tanto o fascinava. "Exato! Pega o rádio, por exemplo. Tesla demonstrou a transmissão sem fio antes do Marconi, patenteou os princípios fundamentais, mas foi o Marconi que levou o Nobel e a fama inicial. Só bem depois a Suprema Corte americana reconheceu as patentes do Tesla. Imagina a frustração!"

"E a grana que ele perdeu com a Corrente Alternada, né?", Ana complementou. "Ele abriu mão de uma fortuna em royalties para o Westinghouse pra garantir que o sistema AC vingasse, porque o Edison tava na pilha da Corrente Contínua."

Lucas meneou a cabeça. "Totalmente altruísta. E o projeto Wardenclyffe? A ideia de energia e informação sem fio para o mundo todo, barrada pela falta de visão dos investidores... Era um cara muito à frente do tempo. E as lâmpadas fluorescentes e neon? Ele demonstrou antes, mas outros levaram o crédito."

"E o controle remoto!", exclamou Ana. "Um barco controlado por rádio em 1898! Puro gênio. Morreu quase na miséria, né? Um contraste absurdo com o impacto das invenções dele."

Enquanto a conversa fluía, a paisagem mudava, os edifícios altos de Balneário Camboriú surgindo no horizonte. Lucas sentia a energia da cidade, um caldeirão de culturas e possibilidades, mas seu olhar já se voltava para o interior, para a promessa histórica de Witmarsum. "Acho que nossa próxima parada vai render boas locações e histórias", comentou, virando o carro em direção à BR-470.


II

Primeiros Passos no Jardim da História


A estrada serpenteava entre colinas verdejantes, o clima mais ameno e o ar com um toque rural substituindo a umidade litorânea. "Witmarsum...", Lucas murmurou, lendo a placa na entrada da cidade. "Um nome com história."

Na pequena praça central, eles encontraram Seu Helmuth, um senhor de rosto marcado pelo tempo e um olhar tranquilo. Lucas, com sua habitual curiosidade, puxou conversa. "Bom dia! Uma cidade bem charmosa. Sabemos que tem uma história de colonização interessante..."

Seu Helmuth sorriu, a sabedoria dos anos estampada em cada ruga. "Ah, sim. Começou lá nos anos 20 com os alemães, mas a Witmarsum que conhecemos hoje nasceu mesmo com a chegada dos menonitas do Paraná, lá pelos anos 50. Trouxeram o nome, os costumes..."

"Menonitas?", Ana interveio, sempre atenta a uma boa história. "Ligados ao Menno Simons da Holanda, não é?"

Seu Helmuth confirmou com um aceno. "Isso mesmo. Fugindo das dificuldades, buscando uma vida de paz e trabalho na agricultura. Depois vieram os italianos também, cada um trazendo sua cultura, seus sabores..."

Lucas observava a arquitetura peculiar de algumas casas, com um toque germânico inconfundível. "Dá pra sentir essa mistura. E o nome 'Witmarsum', o que significa?"

"Dizem que é uma homenagem à cidade do Menno Simons na Holanda. Uma universidade de lá pesquisou e parece que 'Witmar' era um nome de um príncipe antigo e 'sum' significava jardim. 'Jardim de Witmar', um lugar bonito, de paz..." Seu Helmuth suspirou, contemplando a praça florida. "Mas para nós, é a lembrança da nossa origem, da nossa fé."

Enquanto o sol da tarde começava a declinar, Lucas sentia o potencial cênico da cidade. As casas antigas, a tranquilidade das ruas, a aura de história pairando no ar. "Imagine filmar um drama de época aqui, mostrando a chegada dos primeiros colonos, os desafios, a construção da comunidade...", comentou com Ana, enquanto se despediam de Seu Helmuth. "As paisagens rurais ao redor também são incríveis."


III

Sabores e Tradições no Interior


No dia seguinte, o clima amanheceu com uma névoa suave, logo dissipada por um sol radiante. Lucas e Ana se aventuraram pelas estradas vicinais, descobrindo a beleza do interior de Witmarsum. Campos verdejantes, plantações ordenadas e a arquitetura rústica de antigas propriedades rurais compunham a paisagem.

Pararam em um café colonial aconchegante, onde Dona Frida, uma senhora de ascendência alemã com um sorriso acolhedor, servia um café preto forte e um Apfelstrudel delicioso. A conversa logo girou em torno das tradições locais.

"Aqui a gente valoriza muito o que vem da terra", explicou Dona Frida, enquanto Lucas filmava discretamente alguns detalhes do ambiente com seu celular. "A produção de leite é forte, os queijos, os embutidos... Cada família tem um jeito de fazer, uma receita que passa de geração pra geração."

"E as festas?", perguntou Ana, curiosa sobre o lado cultural.

"Ah, as festas! Temos a Festa do Colono, que celebra o trabalho na lavoura, com muita música, dança e comida típica. Dá pra ver a mistura das culturas, a polenta dos italianos, o chucrute dos alemães..." Dona Frida sorriu, lembrando das celebrações. "E as tradições religiosas também são importantes, marcando o ritmo da comunidade."

Enquanto exploravam uma propriedade rural, Lucas observou a técnica de produção artesanal de queijo, um processo lento e cuidadoso. "Isso aqui daria uma cena linda, mostrando a conexão das pessoas com a terra, a valorização do trabalho manual", comentou com Ana. "A luz da tarde batendo nos campos, o aroma do queijo... Cinema puro."

No carro, enquanto seguiam para outra localidade, Ana ponderou. "Essa riqueza cultural e natural toda... Imagina o impacto que uma Film Commission poderia ter aqui. Atraindo produções, gerando renda, dando visibilidade pra essa história."

Lucas concordou. "Totalmente. E não só aqui. Pensa em toda Santa Catarina, com essa diversidade de cenários e culturas. Uma FC estadual poderia mapear essas locações, facilitar as filmagens, divulgar o potencial... Seria um set de filmagem a céu aberto!"


IV 

A Torre e o Legado Inacabado


O céu nublado da manhã deu lugar a um sol forte, mas o vento fresco anunciava uma mudança no clima. Lucas e Ana visitaram o Centro Cultural Paul Zerna, um antigo casarão que abrigou a escola alemã e a cooperativa menonita, um testemunho da história da comunidade.

Enquanto exploravam o local, Lucas imaginava cenas de época se desenrolando ali, os imigrantes chegando, as primeiras aulas, as reuniões da cooperativa. "Cada canto aqui respira história", comentou, fascinado.

A conversa inevitavelmente voltou para o tema das invenções e injustiças, dessa vez focando em um projeto grandioso e inacabado. "Sabe o Sistema Mundial Sem Fio do Tesla?", Lucas perguntou a Ana. "A ideia de transmitir energia e informação sem fio para o mundo todo?"

Ana assentiu. "Aquele projeto da Torre Wardenclyffe, que nunca foi concluído por falta de grana e apoio."

"Exato! Imagina o impacto se ele tivesse conseguido. Uma revolução nas comunicações e na distribuição de energia. Mais uma visão genial que não se concretizou totalmente na época dele." Lucas suspirou, sentindo a frustração do inventor. "Às vezes penso em quantas ideias brilhantes se perdem por falta de oportunidade ou reconhecimento."

Enquanto deixavam o centro cultural, o vento se intensificou e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. A mudança repentina no clima reforçou a ideia da versatilidade de Santa Catarina como locação. "Um dia ensolarado nos campos, uma tarde chuvosa em um casarão histórico...", observou Ana. "Condições climáticas variadas para diferentes tipos de cena."

Lucas concordou, o olhar já capturando a beleza melancólica da chuva caindo sobre os telhados antigos. "E amanhã pode ser um dia de sol novamente. Essa imprevisibilidade pode ser uma vantagem para produções que precisam de diferentes atmosferas."


V

Plantando Sementes para o Futuro do Cinema


O último dia amanheceu com um céu azul lavado, o ar fresco e renovado pela chuva. Lucas e Ana encontraram o Sr. Erich, um produtor cultural local engajado na preservação da história de Witmarsum. A conversa girou em torno do potencial da região para o turismo e para o audiovisual.

"Nós temos tanta história pra contar, tantas paisagens lindas...", disse Sr. Erich, mostrando fotos antigas da cidade e dos seus moradores. "Mas falta estrutura, falta visibilidade para atrair quem possa transformar essas histórias em filmes, em séries."

Lucas compartilhou suas observações e o potencial que enxergava na região. "Uma Film Commission aqui em Santa Catarina poderia ser um divisor de águas. Não só para Witmarsum, mas para todo o estado. Mapear as locações, facilitar as filmagens, criar incentivos..."

"Seria um sonho!", exclamou Sr. Erich. "Mostrar a nossa cultura, a nossa história para o mundo. Gerar empregos, trazer desenvolvimento..."

Ana complementou, citando exemplos de outras regiões que se beneficiaram de FCs. "O impacto econômico e turístico é enorme. Sem falar na valorização da identidade local."

Enquanto se despediam de Sr. Erich, Lucas sentia uma ponta de esperança. A semente da ideia de uma Film Commission em Santa Catarina, plantada em suas conversas sobre as injustiças sofridas por visionários como Tesla e nutrida pela beleza e história de lugares como Witmarsum, começava a germinar em sua mente.

No caminho de volta para Balneário Camboriú, a paisagem litorânea surgindo novamente no horizonte, Lucas pensava no futuro. Talvez, com um olhar atento e a paixão pela sétima arte, ele pudesse contribuir para que o "Jardim de Witmar" e outros recantos de Santa Catarina se tornassem palcos vibrantes para inúmeras histórias, celebrando sua rica diversidade cultural e seu potencial cinematográfico a céu aberto. A falta de um curso de Cinema em BC ainda o incomodava, mas a vastidão de histórias esperando para serem contadas em sua terra natal acendia uma nova chama em seu coração de produtor.

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