O Circo Eletrônico e a Ave-Palavra da Tela: He Dantés na Câmara Setorial de Artes Populares e Circo
He Dantés ajustou os óculos, sentindo um misto de apreensão e determinação ao adentrar a sala da Câmara Setorial de Artes Populares e Circo. A ausência de quórum na Setorial de Literatura fora um alívio inesperado, um sinal talvez de que sua ousada proposta encontraria um terreno mais fértil entre aqueles que celebravam a expressão artística em suas formas mais diversas e populares.
"Boa noite a todos", saudou Dantés, sua voz ecoando um pouco mais alta do que o habitual. "Agradeço a presença e a abertura desta Câmara para discutir um tema que acredito ser crucial para a compreensão da nossa cultura e da nossa própria linguagem."
Ele pigarreou, buscando as palavras certas para apresentar sua visão. "Inicialmente, pretendia trazer esta reflexão à Setorial de Literatura, mas confesso que hesitei. O receio de encontrar uma resistência arraigada a formas narrativas que transcendem o livro me fez buscar este espaço, onde a arte pulsa em suas múltiplas manifestações, da lona ao palco iluminado."
Dantés fez uma pausa, observando os rostos curiosos ao seu redor. "O que desejo trazer à discussão hoje", prosseguiu com um brilho nos olhos, "é a necessidade de reconhecermos a teledramaturgia brasileira não apenas como entretenimento de massa, mas como uma forma singular e poderosa da nossa linguagem, uma força cultural que merece a atenção e, ousaria dizer, o reconhecimento da própria Academia Brasileira de Letras."
Ele sorriu levemente, antecipando possíveis reações. "E, talvez para facilitar a nossa conversa e honrar o espírito criativo desta Câmara, proponho que pensemos na teledramaturgia como o nosso próprio 'Circo Eletrônico', em homenagem àquela obra luminosa de Daniel Filho que celebra a magia da narrativa audiovisual."
Dantés então mergulhou em sua argumentação, tecendo os fios das suas reflexões:
"Pensemos no papel do escritor de telenovela", começou, sua voz ganhando firmeza. "Ele não é apenas um contador de histórias; é um arquiteto de mundos efêmeros que habitam o imaginário de milhões de brasileiros. Diariamente, ele ergue, através de diálogos e cenas, universos ficcionais que se fundem à nossa realidade, influenciando nosso vocabulário, nossos debates e, como bem observou José Wilker, unindo este país continental de uma maneira que poucas outras formas de expressão conseguiram."
Ele fez um gesto com as mãos. "Se nos debruçarmos sobre a história, encontraremos um paralelo fascinante no gênero folhetim. Aquelas narrativas seriadas que prendiam a atenção dos leitores nos jornais do século XIX exerciam uma influência semelhante, ditando modas, popularizando expressões e mantendo um público vasto ansioso pela próxima edição. A telenovela é, em sua essência, a herdeira tecnológica e audiovisual desse formato narrativo popular."
Os olhos de Dantés brilharam ao mencionar um nome caro à Academia. "E quem melhor compreendeu a complexidade da alma humana e a arte de narrar em série do que o próprio Machado de Assis? Muitos de seus romances magistrais foram publicados originalmente em folhetim. Ele sabia como usar os ganchos, como explorar a psicologia de seus personagens ao longo de semanas de publicação, mantendo seus leitores cativos. O escritor de telenovela, com a pressão diária de manter milhões de olhos fixos na tela, exerce uma arte similar, uma maratona criativa que exige um domínio da linguagem e da narrativa comparável ao do nosso Bruxo do Cosme Velho. Ouso dizer que, para esses autores, 'é ser Machado todo dia', com a dimensão de parar um país a cada final de capítulo, como fazem maestres da escrita para a tela como Glória Perez e Walcyr Carrasco."
Dantés fez uma pausa, permitindo que suas palavras ecoassem na sala. "E como podemos ignorar a representação das Artes que a própria Academia celebrou com a eleição de Fernanda Montenegro? Sua trajetória, indissociável da teledramaturgia e do teatro, demonstra como a interpretação eleva a palavra escrita a uma nova dimensão artística, alcançando corações e mentes de maneiras únicas. A admissão de escritores de telenovela seria um reconhecimento análogo, celebrando aqueles que concebem as palavras que ganham vida na tela."
Ele concluiu sua argumentação com uma analogia poderosa. "Assim como Ailton Krenak nos lembra que em uma única pessoa podem residir mais de trezentos idiomas indígenas, enriquecendo nossa compreensão das Letras e da Língua Portuguesa no Brasil, a teledramaturgia, com sua linguagem multifacetada e seu alcance popular, soma uma vasta gama de expressões e narrativas ao nosso panorama cultural. Negar sua legitimidade é como ignorar uma parte significativa do nosso próprio idioma."
Dantés olhou para os membros da Câmara, seu olhar carregado de esperança. "Peço a vocês, artistas populares, homens e mulheres do circo, que compreendem a força da comunicação direta e a magia da narrativa que cativa multidões, que reflitam sobre o valor da teledramaturgia como linguagem brasileira. Que esta Câmara, aberta à diversidade e à vitalidade da nossa cultura, possa ecoar uma 'ave-palavra' à Academia Brasileira de Letras, defendendo o reconhecimento deste nosso 'Circo Eletrônico' e de seus talentosos autores."
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