terça-feira, 15 de abril de 2025

Capítulo XIII - O Dilema das Línguas e o Germe da Universidade

A "Feira da Alma Catarinense" continuava a ser um local de criatividade e encontro, mas na mente de He Dantés, as palavras lidas e declamadas nos encontros literários recentes ecoavam com uma nova urgência. A literatura, pensava ele, era a sementeira das ideias, o solo fértil onde a imaginação podia germinar e florescer. As histórias que haviam sido compartilhadas, os versos que haviam tocado corações, tudo isso reforçava sua convicção de que a arte, em todas as suas formas, era essencial para o desenvolvimento pleno do indivíduo e da comunidade.

Lembrou-se com carinho de Eduardo Torto, um amigo de longa data cuja paixão pela literatura era contagiante. Eduardo, com sua peculiar alcunha e sua mente brilhante, havia levado a força das palavras para as escolas onde estudou, compartilhando com os jovens a magia das histórias e a importância da leitura. Dantés se recordava dos "borbulhos mentais" que Torto tanto valorizava, como título de um de seus livros – termo para aqueles momentos de epifania, de faíscas de compreensão que acendiam a curiosidade e impulsionavam o aprendizado. Era a mesma centelha que Dantés buscava reacender em Balneário Camboriú.

A imagem do terreno onde Eduardo havia proferido algumas daquelas palestras para estudantes pairou em sua mente. E se ali, naquele mesmo solo que testemunhou o despertar de tantas mentes jovens, pudesse nascer uma nova instituição de ensino? Uma universidade, talvez, moldada não apenas pelo conhecimento técnico, mas também pela valorização da arte e da cultura, inspirada no legado multifacetado de um Da Vinci moderno? A ideia o entusiasmava, um passo lógico na sua busca por justiça, oferecendo oportunidades de crescimento intelectual e criativo para as futuras gerações. O "Campus Misto BC" era um bom começo, mas Dantés ambicionava algo ainda maior, um centro de saber enraizado na própria alma catarinense, quem sabe até mesmo revitalizando o nome da Escola Educação Básica Professor Laureano Pacheco em uma nova roupagem universitária.

No entanto, um nó se formou em seus pensamentos. A riqueza cultural de Balneário Camboriú era inegável, mas a comunicação, por vezes, esbarrava nas barreiras linguísticas. A memória de sua própria fluência em diversos idiomas, uma herança dos ensinamentos do Abade Faria na obra de Dumás, contrastava fortemente com a falta de acesso a escolas de idiomas públicas na cidade. Como promover um intercâmbio cultural genuíno, como abrir as portas do conhecimento universal se a própria língua se tornava um obstáculo? O dilema o confrontava em múltiplas vozes mentais, um coro de línguas estrangeiras que ecoavam a necessidade premente de superar essa barreira.

"Falar a mesma língua...", murmurou para si mesmo, a frase carregada de um significado que ia além do literal. Era sobre compreensão mútua, sobre a capacidade de se conectar em um nível mais profundo, de compartilhar ideias e sonhos sem a mediação hesitante de um dicionário ou a insegurança de uma pronúncia vacilante.

Por um instante, a multiplicidade de seus projetos – a feira, o cinema, a valorização da literatura, a nascente ideia da universidade – ameaçou fragmentar seu foco. O dilema das línguas parecia um obstáculo complexo a ser superado antes que seus outros planos pudessem florescer plenamente.

Mas então, a imagem clara de seu objetivo principal emergiu, límpida e inabalável como a luz do amanhecer na praia. Sua busca era pela "eterna justiça para a Arte" em todas as suas manifestações, e a educação, em seu sentido mais amplo, era um pilar fundamental dessa justiça. A universidade, o acesso ao conhecimento, a quebra das barreiras linguísticas – tudo isso convergía para o mesmo ponto: empoderar a comunidade, abrir horizontes e nutrir o potencial criativo que pulsava em Balneário Camboriú.

Com uma respiração profunda, He Dantés afastou a momentânea dispersão. O dilema das línguas não era um impedimento, mas sim mais um desafio a ser enfrentado em sua jornada. A semente da universidade estava plantada, inspirada em visões estratégicas como a de Da Vinci, Einstein, Humboldt, Torto e no potencial latente da comunidade. Agora, era preciso encontrar os meios para cultivá-la, para garantir que o conhecimento florescesse em todas as línguas e para todos os corações sedentos de aprendizado em Balneário Camboriú. Sua saga continuava, impulsionada pela certeza de que a justiça para a arte passava, inevitavelmente, pela democratização do saber.

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