quinta-feira, 17 de abril de 2025

Capítulo 75 O Sonho na Imortalidade e a Carta à Visionária da Tela

A penumbra aveludada da noite de Balneário Camboriú lentamente se dissipava, dando lugar aos primeiros raios de sol que dançavam sobre os livros de He Dantés. Mas sua mente ainda pairava em um domínio onírico, vívido e eloquente. Em seu sonho, encontrava-se no coração solene da Academia Brasileira de Letras, o mármore frio sob seus pés descalços, o ar impregnado de história e o sussurro fantasmagórico de vozes imortais.

Diante dele, imponente e pensativa, erguia-se a estátua de Machado de Assis. Dantés sentia uma reverência quase palpável, como se o próprio Bruxo do Cosme Velho o observasse com um misto de curiosidade e escrutínio. Era ali, sob o olhar silencioso do fundador, que sua tese sobre a teledramaturgia e a ABL ganhava uma nova urgência, uma clareza onírica.

No sonho, a estátua parecia ganhar vida, seus lábios de bronze se moverem levemente. Dantés não ouvia palavras, mas sentia uma aura de sabedoria ancestral o envolver, como se Machado o incentivasse a romper as barreiras do preconceito e a reconhecer as novas formas de expressão que floresciam no Brasil.

Com essa inspiração onírica pulsando em seu peito, Dantés despertou com uma convicção renovada. A imagem da estátua de Machado e a silenciosa aprovação do sonho o impeliram a transcrever seus pensamentos mais profundos. Sentou-se à sua escrivaninha, a brisa matinal carregando o aroma do mar, e começou a escrever uma carta para aquela que considerava uma das maiores visionárias da narrativa brasileira para a tela: Glória Perez.

Prezada Imortal Glória Perez,

Escrevo-lhe estas palavras, impulsionado por uma série de reflexões que têm habitado minhas noites e meus dias aqui em Balneário Camboriú, enquanto projeto os alicerces de uma futura universidade. Permita-me compartilhar consigo uma tese que acredito ser fundamental para a compreensão da nossa cultura e para a própria evolução da Academia Brasileira de Letras.

Em minhas divagações, tenho me detido profundamente no fenômeno da teledramaturgia brasileira, essa força narrativa que, como bem observou o saudoso José Wilker, possui a singular capacidade de unir um país continental em torno de histórias compartilhadas. Talvez, como o folhetim no século XIX prendeu a atenção dos leitores nos periódicos, a telenovela, esse "Circo Eletrônico" que Daniel Filho tão poeticamente evocou, cativa milhões de brasileiros diariamente, tecendo um intrincado bordado de emoções, debates e referências culturais comuns.

Assim como Machado de Assis, um mestre da serialização em sua época, soube utilizar os ganchos e desenvolver personagens complexos ao longo das páginas dos jornais, os escritores de telenovela do nosso tempo enfrentam o desafio diário de manter a atenção de uma audiência vasta e diversificada através da tela. A maestria com que você, assim como Walcyr Carrasco e outros luminares da teledramaturgia, constrói tramas intrincadas, explora a profundidade da alma humana e aborda temas cruciais para a nossa sociedade, ecoa a genialidade do nosso Bruxo do Cosme Velho, adaptada a uma nova linguagem.

Acredito firmemente que a teledramaturgia constitui uma forma legítima e poderosa da linguagem brasileira. Sua natureza híbrida, que মিশাল o verbo à imagem, ao som e à performance, cria um sistema sígnico complexo que influencia nosso vocabulário, nossos costumes e nossos debates sociais de maneira indelével. Se o cordel e a literatura oral encontraram seu reconhecimento como manifestações autênticas da nossa cultura, por que negar esse status aos folhetins audiovisuais que alcançam um público tão vasto?

Sua própria trajetória, Prezada Glória, assim como a de Fernanda Montenegro, cuja eleição à ABL celebrou a arte da interpretação, demonstra a intrínseca ligação entre a palavra escrita e sua encarnação na tela. Os escritores de telenovela são arquitetos de mundos efêmeros que, através do poder da narrativa audiovisual, moldam o imaginário coletivo e contribuem significativamente para a construção da nossa identidade nacional.

Assim como a rica tapeçaria da língua portuguesa se enriquece com a miríade de idiomas indígenas, como nos lembra a sabedoria de Ailton Krenak, a teledramaturgia, com sua linguagem multifacetada e seu alcance popular, soma uma vasta gama de expressões e narrativas ao nosso panorama cultural.

Sonhei, Prezada Glória, que estava na sede da Academia, sob o olhar silencioso da estátua de Machado. E nesse sonho, senti que o próprio fundador nos convocava a expandir nossa visão, a romper as barreiras do preconceito e a reconhecer a vitalidade da nossa cultura em todas as suas formas.

Escrevo-lhe, portanto, com a esperança de que minhas reflexões encontrem eco em sua sensibilidade artística e em sua profunda compreensão da alma brasileira. Acredito que a Academia Brasileira de Letras tem uma oportunidade única de abraçar a teledramaturgia como um pilar fundamental da nossa linguagem, integrando em seus quadros os visionários que, como você, constroem pontes de emoção e significado através da tela.

Com a mais profunda admiração pelo seu trabalho e pela sua inestimável contribuição à cultura brasileira,

Atenciosamente,

He Dantés.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.