Capítulo XXVI: Na Viagem e na Praça: O Azul Reflete a Tela de Balneário
II
A sirene silenciava ao longe, deixando para trás o eco fugaz na Avenida Atlântica. Dentro da viatura, o Sargento Ricardo dirigia com a atenção de sempre, enquanto o Cabo Júlia observava o movimento da orla, onde o sol da manhã já atraía os primeiros banhistas e corredores.
"Sargento", começou Júlia, quebrando o silêncio habitual das primeiras horas do dia. "Pensando naquela ligação do gestor cultural... o He Dantés."
Ricardo assentiu, os olhos fixos na via. "Sim, Cabo. Uma abordagem... diferente."
"Mas ele tem um ponto, não acha?", continuou Júlia, o olhar percorrendo os prédios altos que emolduravam a praia. "Balneário, em si, já é um cenário pronto. Essa arquitetura moderna contrastando com o mar, a orla movimentada, até a Mata Atlântica ali nos morros..."
Ricardo desviou brevemente o olhar para o Morro do Careca, com sua vegetação exuberante. "Verdade. Já vi algumas fotos de produções menores que usaram a cidade como pano de fundo. Comerciais, clipes musicais..."
"E pense nas possibilidades", emendou Júlia, com um entusiasmo crescente. "A vida noturna agitada, os iates na marina, os teleféricos com aquela vista panorâmica... até mesmo as ruas mais tranquilas no interior da cidade podem render boas cenas."
Chegaram à Praça Almirante Tamandaré, onde a roda gigante começava a girar lentamente, um gigante de luz e metal contra o céu azul. Ricardo estacionou a viatura por alguns instantes, observando o movimento.
"Essa praça mesmo", comentou Ricardo. "Com a roda gigante, o mar logo ali, a arquitetura dos arredores... já é um cenário dinâmico. Poderia ser palco de uma comédia romântica, um suspense..."
"E não só Balneário", acrescentou Júlia, a mente já viajando pelas possibilidades do estado. "Lembrei das nossas operações em outras cidades. A beleza rústica de Bombinhas, as praias desertas de Garopaba, a arquitetura colonial de Laguna..."
"E a Serra?", interrompeu Ricardo, lembrando da conversa que tiveram com outros colegas sobre o potencial de Santa Catarina. "Aqueles cânions imensos, a neblina criando um ar misterioso... parece cenário de filme épico ou de suspense psicológico."
Júlia sorriu, a imaginação voando longe. "Imagine um filme de época ambientado em alguma das cidades históricas do Vale do Itajaí, com aquelas construções e as festas típicas. Ou um documentário sobre a cultura do oeste catarinense, com suas tradições e paisagens rurais."
"Santa Catarina é um mosaico de cenários", concluiu Ricardo, pensativo. "A gente vive aqui, patrulha essas ruas, mas às vezes não para para perceber o potencial que existe ao nosso redor. É como se tivéssemos um estúdio cinematográfico gigante a céu aberto, esperando para ser descoberto."
"E se essa vinda do Coppola realmente acontecer...", ponderou Júlia, um brilho de expectativa nos olhos. "A atenção que isso traria para o estado seria enorme. Produtoras de todo o mundo poderiam começar a olhar para cá."
"Seria bom para a economia, para o turismo, para a cultura local", concordou Ricardo, ligando novamente a viatura para seguir a ronda. "Quem sabe um dia a gente não precise dar apoio de segurança para alguma filmagem importante aqui em Balneário?"
Ambos riram, a sirene silenciada dando lugar ao som ambiente da cidade que despertava. Naquela manhã, enquanto protegiam as ruas de Balneário Camboriú, dois policiais, imersos na rotina da segurança pública, vislumbraram, por um breve momento, o potencial cinematográfico da sua cidade e do seu estado, um set a céu aberto esperando para brilhar nas telas do mundo. A "emergência cultural" da ligação de He Dantés havia plantado uma semente de possibilidades em meio às cores das viaturas e fardas.
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