Capítulo XXV
II
À Sombra da Figueira: A Conversa Inesperada
A brisa matinal na Praça XV de Novembro dançava entre as folhas verde-escuras da Figueira Centenária, sussurrando histórias de séculos passados. Em um banco discreto, não muito distante do tronco maciço da árvore símbolo de Florianópolis, o Sargento Marcos e o Cabo Ana observavam o despertar da cidade, o burburinho dos primeiros transeuntes e o brilho suave do sol na Baía Norte.
"Sargento", começou o Cabo Ana, quebrando o silêncio contemplativo, "aquela conversa com o He Dantés... ainda estou pensando nisso."
Marcos sorriu levemente, ajustando a boina. "Você e eu, Cabo. Confesso que no início achei um tanto... peculiar. Um gestor cultural ligando para o 190 para falar sobre Francis Ford Coppola."
Ana riu baixinho. "Peculiar é um bom termo. Mas depois, pensando bem... ele tem um ponto, não acha?"
Marcos assentiu lentamente. "O potencial de Santa Catarina como cenário... é inegável. A gente vê nas nossas rondas, nas ocorrências em diferentes partes do estado. A beleza da Serra, a costa com suas praias e ilhas, o interior com suas tradições... É um estado diverso demais para passar despercebido."
"Exatamente", concordou Ana, observando um grupo de turistas fotografando a Figueira. "Essa árvore aqui mesmo, Sargento. Quantas histórias ela já viu? Quantos filmes poderiam ser ambientados aqui, nessa praça, com essa atmosfera histórica?"
Marcos seguiu o olhar da Cabo para a Figueira. "Verdade. E pense nos fortes da Ilha, nas ruínas de construções antigas, nas vilas de pescadores com suas cores vibrantes. Cada canto de Florianópolis parece um cartão-postal, pronto para ser filmado."
"E não é só a Ilha", continuou Ana, o entusiasmo crescendo em sua voz. "Lembrei de uma ocorrência que atendemos no Vale do Itajaí, em uma daquelas cidades com arquitetura alemã. Parecia um cenário de filme de época! E as plantações de uva, as festas típicas... uma riqueza cultural enorme."
"Sem falar no oeste", acrescentou Marcos, pensativo. "As tradições gaúchas, a culinária diferente, as paisagens rurais... É outro mundo dentro do mesmo estado. E a Serra, como o comandante mencionou... aqueles cânions imensos, a neblina... parece coisa de filme de aventura ou suspense."
Ana suspirou, admirando a copa frondosa da Figueira. "Às vezes a gente está tão focado na nossa rotina, nas ocorrências do dia a dia, que não para para pensar no potencial que a gente tem ao nosso redor. Santa Catarina é um set de filmagem gigante a céu aberto, esperando para ser descoberto."
"E a vinda de alguém como Francis Ford Coppola...", ponderou Marcos, a voz carregada de um certo deslumbramento. "Imagine a atenção que isso traria. Outros cineastas se interessariam, as produções aumentariam, a economia local seria impulsionada..."
"Seria bom para todo mundo", concluiu Ana, um brilho no olhar. "Mais empregos, mais turismo, mais reconhecimento para o nosso estado. Quem diria que uma ligação para o 190 poderia despertar uma conversa dessas?"
Marcos riu levemente. "Pois é, Cabo. A gente nunca sabe o que o próximo chamado vai trazer. Mas confesso que essa 'emergência cultural' do He Dantés me fez ver Santa Catarina com outros olhos. Talvez a nossa missão não seja apenas garantir a ordem, mas também ajudar a proteger e promover a beleza e o potencial da nossa terra."
Ambos ficaram em silêncio por um momento, observando a luz da manhã brincar entre os galhos da Figueira Centenária, a testemunha silenciosa de uma conversa inusitada que, quem sabe, poderia ser o prenúncio de um novo e cinematográfico capítulo para Santa Catarina. A cor das fardas se misturava ao verde da praça, em uma reflexão sobre o potencial adormecido de um estado que ansiava por brilhar também nas telas do mundo.
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