Há quem diga que a solidão é o mal do século. Tolice. O mal do século é que nunca estamos sós. O Estado moderno, em sua infinita caridade, decidiu que o "vinde a mim" de outrora agora se aplica aos nossos dados, suspiros e segredos de travesseiro. Se o capítulo anterior tratava da chantagem bruta, este trata da traição sutil: aquela que dorme na sua mesa de cabeceira e carrega a bateria na tomada da sua sala.
O Espião no Bolso
Antigamente, para se trair uma confiança, era necessário um beijo, uma moeda de prata e algum suor. Hoje, basta um "aceito os termos de uso". Em 2025, a vigilância em Balneário Camboriú não traja farda; ela veste silício. O governo federal, sob o pretexto de nos proteger de "fake news" ou de "ameaças à democracia", transformou cada assistente virtual em um pequeno escrivão da Polícia Federal.
O cidadão catarinense, ao comentar sobre a alta do custo de vida ou ao criticar a última manobra de Brasília, não fala apenas para as paredes. Ele fala para um sistema que, por meio de algoritmos legitimados pelo governo de turno, cataloga o seu descontentamento. É a Delação Premiada da Intimidade: o aparelho que você comprou com o fruto do seu trabalho é o mesmo que testemunha contra você no tribunal da conveniência política.
A Invasão da Casa Brasileira
Machado, se estivesse entre nós, riria da nossa ingenuidade. Ele, que tão bem descreveu as dissimulações do espírito, veria no smartphone o ápice da máscara social. O Estado-Vampiro infiltra-se nos afetos. Ele quer saber não apenas o que você faz, mas o que você ama, o que você teme e, principalmente, a quem você obedece.
Em Balneário Camboriú, onde a vida se desenrola entre a verticalidade do progresso e o horizonte do mar, a traição digital assume um tom de tragédia clássica. O governo federal — esse ente que se diz "União" — age como o vizinho bisbilhoteiro que, não satisfeito em olhar por cima do muro, instala microfones nas flores do seu jardim.
"Não se engane, leitor: o Estado não lhe dá uma tecnologia para que você fale com o mundo; ele a dá para que o mundo, devidamente filtrado por Brasília, fale por você — ou o denuncie por silêncio."
A Legitimidade do Estranho
O que dói mais na alma de um povo autônomo não é ser vigiado, mas ser vigiado por quem não o entende. Nos últimos anos, legitimou-se que pessoas de outros estados, burocratas que nunca sentiram o cheiro do mar catarinense, pudessem julgar o que é "ordem" ou "desordem" na nossa terra. É a traição da proximidade.
Quando um algoritmo decide que uma expressão de indignação em BC é uma ameaça nacional, o contrato social não está apenas ferido; ele está morto e enterrado em cova rasa. O Estado-Vampiro prefere a segurança do dado à liberdade do homem. Ele prefere o relatório frio à alma quente.
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