domingo, 9 de novembro de 2025

26/09/2025

A Paz Aérea de Gaza: Uma Reflexão sobre a Escolha Entre Controle e Confiança

A discussão sobre as garantias de paz para o espaço aéreo de Gaza expõe a escolha mais dolorosa e decisiva que Israel, a Autoridade Palestina e a comunidade internacional precisam fazer: continuar com a ilusão de segurança através do controle, ou arriscar a paz através da confiança.

O paradoxo é brutalmente simples: a segurança militar total que Israel exige hoje – manter o controle aéreo irrestrito e negar a soberania – é, precisamente, o combustível para a guerra de amanhã. Para o povo de Gaza, a ausência de controle sobre seu próprio céu é a negação de sua dignidade, de sua economia e de seu futuro político. Essa negação garante o desespero que alimenta o extremismo, reiniciando o ciclo de violência.

A doutrina de "Liberdade de Ação Operacional" de Israel pode oferecer segurança tática imediata, mas impõe um custo estratégico insustentável: a responsabilidade eterna pela vida civil de Gaza. Ao atuar unilateralmente, Israel se torna o único alvo da condenação internacional e a única entidade culpada pelo colapso humanitário. Além disso, o controle unilateral elimina qualquer incentivo para que uma administração palestina se comprometa com a desmilitarização. Por que uma AP reformada arriscaria sua legitimidade ao reprimir facções se Israel mantiver o direito de bombardear e intervir a qualquer momento?

II

A verdadeira segurança de Israel reside, paradoxalmente, em transferir esse controle.

O Risco Calculado da Conciliação

As garantias de paz propostas – o condicionamento das incursões aéreas ofensivas de Israel a uma ameaça verificada e a abertura de um aeroporto civil sob supervisão internacional – representam um risco calculado.

Para que essa conciliação funcione, a Comunidade Internacional deve intervir como garantidora ativa da confiança:

1. Garantia de Desmilitarização: A Força de Verificação Multinacional (FV) deve assumir o risco da segurança primária, auditando e certificando a desmilitarização palestina de Gaza.

2. Imposição de Custos: Os EUA e as potências árabes devem vincular seu apoio financeiro e militar. Se a Autoridade Palestina não desmilitarizar, perde o financiamento maciço para a reconstrução. Se Israel abusar do seu poder aéreo, perde a ajuda militar e o apoio diplomático. 

A paz aérea, portanto, não será alcançada por meio da força, mas por meio de um acordo de partilha de risco imposto por terceiros*. É um ato de reconhecimento mútuo: Israel reconhece que a soberania palestina não é a ameaça, mas a única solução para a segurança de longo prazo; e os palestinos reconhecem que a desmilitarização é o preço para essa soberania.

A decisão final é uma escolha entre perpetuar a guerra sob a ilusão de controle ou construir a paz através de um pacto de confiança monitorado pelo mundo. Qual das opções é realmente a mais segura para o futuro de Israel e da Palestina?

* Rodrigo Rocha 


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