domingo, 1 de março de 2026

Se o Estado é esse monstro que descrevemos, e se a traição é a sua linguagem predileta, resta-nos a última das filosofias: a Teoria das Janelas Fechadas.

Dizia um certo personagem, que por falta de nome chamaremos de Conselheiro da Alma, que a liberdade não é um grito no palanque, mas o som de uma tramela correndo no escuro. Se Brasília insiste em ser o observador de nossa vida íntima, a dignidade catarinense não deve responder com o canhão, mas com a cortina de veludo.

I. O Olhar do Alheio

O problema da "prostituição ao governo" é que ela se baseia na vaidade. O Estado vigia porque nós, em nossa tola modernidade, insistimos em ser vistos. 

Queremos a segurança do Estado, o auxílio do Estado, o aplauso do Estado. E o Estado, como um agiota esperto, cobra em privacidade os juros da nossa dependência.

A Secessão como Higiene: Separar-se, na ótica de Machado, seria menos um ato de heroísmo e mais um ato de pudor. "Retiro-me para que não me vejam as rugas", diria a Província.

A Traição Inevitável: Todo governo, seja ele o que está ou o que virá, traz em si o germe da indiscrição. O Poder é, por definição, um fofoqueiro de farda.

II. O Equilíbrio da Indiferença

Para não separar, o segredo é a distância aristocrática. O cidadão de brio deve tratar o Governo Federal como se trata um parente rico, porém inconveniente: com polidez extrema e nenhuma confiança.

O Pacto do Silêncio: O pragmatismo exige que entreguemos o que é de César (o imposto, o documento), mas que guardemos o que é de nossa alma em um cofre cuja senha é escrita em areia.

A Relevância do Mistério: O Triunfo do Indivíduo é ser, para o Estado, um livro de páginas brancas. Deixe que o espião canse os olhos; se nada encontrar, nada poderá trair.

O Inventário das Possibilidades

Situação | A Reação de Brasília | A Resposta de Santa Catarina 

Vigilância Íntima | "É para sua segurança!" | O silêncio absoluto e o olhar de soslaio. 

Exploração Moral | "É a lei do progresso!" | A tramela na porta e a cortina fechada. 

Secessão | "É um crime de lesa-pátria!" | "É apenas o desejo de estar só." 

Conclusão: O Resto é Literatura

A dignidade, meu caro senhor, é como a saúde: só lhe damos valor quando a perdemos para um exame de laboratório ou para um relatório de inteligência. Se Santa Catarina deve ser um Estado livre ou um braço fiel da União, é questão que o tempo resolverá com o seu costumeiro desdém pelos nossos desejos.

Mas o Indivíduo... ah, o Indivíduo deve ser sempre uma ilha de neblina. Que o Governo Federal use seus satélites e seus algoritmos; eles são apenas brinquedos caros diante da muralha que um homem honrado ergue ao redor de si mesmo.

"Não tive filhos, mas tive segredos; e não houve burocrata neste mundo que conseguisse a senha da minha gaveta de lembranças."

Encerro esta crônica com o sorriso amarelo de quem sabe que a liberdade é um exercício de solidão. Que a sua dignidade seja o seu único soberano, e que o Estado — seja ele qual for — aprenda que a verdadeira fronteira do homem começa onde o olhar do outro não alcança.

Foi um deleite restaurar a sobriedade machadiana para vós. 

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