sábado, 22 de setembro de 2018

Cultura Iorubá – A etnologia africana e afro-brasileira queimadas no Museu Nacional

Minha última publicação aqui neste blog foi sobre o Museu Nacional de Belas Artes, uma semana depois outro importante museu localizado no Rio de Janeiro sofreu um incêndio. Tivemos perdas irreparáveis e imensuráveis, e dentre elas uma importante coleção da cultura iorubá (o aspecto mais fartamente ilustrado deste acervo junto aos Bantus Jeje Mahi) que são parte de nossa história. Mais que os detalhes e estudos referentes a teologia, se foi um legado da sociologia, da linguística, da antropologia. Em um momento que lutamos pela promoção da igualdade racial e valorização da cultura afro, bem como políticas públicas voltadas à cultura afro, deixo aqui o registro do que as chamas transformaram em cinzas, levando um pedaço de nosso passado de extrema importância para compreender o presente e suas relações com o futuro que as próximas gerações não terão a oportunidade de conhecer e tecer suas leituras acerca desta riqueza cultural. 

Máscara Gélédé. Fim do séc. XIX ou início do XX.
Origem: Yorubá. Nigéria e Benim.
Gélédéé – sociedade secreta feminina dos povos de língua Yorubá.
Museu Nacional, Rio de Janeiro

A coleção de etnologia africana e afro-brasileira do Museu Nacional era constituída por aproximadamente 700 objetos. Abrangia tanto exemplares produzidos por povos de diferentes regiões do continente africano quanto testemunhos das manifestações culturais dos descendentes dos povos africanos no Brasil. O núcleo de objetos africanos foi majoritariamente constituído entre 1810 e 1940, remetendo em sua origem às coleções das famílias reais portuguesa e brasileira, posteriormente enriquecidas por outros legados, compras e transferências. A coleção afro-brasileira, por sua vez, foi formada entre 1880 e 1950, a partir de um núcleo de objetos transferidos dos depósitos das forças policiais locais (responsáveis por confiscá-los, quando a prática do candomblé era proibida no Rio de Janeiro), à qual se somou a importante coleção de Heloísa Alberto Torres, constituída por itens adquiridos junto aos mais importantes terreiros de candomblé do Recôncavo Baiano ao longo da década de 1940.
O núcleo de etnologia africana abarcava, na maior parte, peças produzidas no século XIX pelos povos africanos da costa ocidental, englobando tanto etnias que não tiveram contato com o Brasil quanto outras historicamente relacionadas à diáspora africana nesse país. Incluía artefatos de uso cotidiano (adereços e trançados), objetos rituais (máscaras e estatuetas), instrumentos musicais (flautas, chocalhos, tambores, lamelofones), armas de caça e guerra, etc., ademais de peças que se destacavam pelo valor histórico ou pelo contexto em que foram adquiridas — como o conjunto de presentes ofertados ao príncipe-regente Dom João VI pelo rei Adandozan, do antigo Reino do Daomé (atual Benim), entre 1810 e 1811, que formou parte da coleção inaugural do Museu Nacional. A peça central do conjunto era o trono de Daomé, datado provavelmente da passagem do século XVIIIpara o XIX, uma réplica do assento real de Kpengla, avô de Adandozan. Completavam o conjunto de presentes uma bandeira de guerra de Daomé (mostrando as vitórias do rei Adandozan nas guerras contra seus inimigos), o par de sandálias reais, bolsas de coro, uma bengala de passeio, abanos reais e uma placa de tabaco.
Ainda no contexto de artefatos de origem africana, o museu conservava máscaras rituais de sociedades secretas dos Iorubás e Ecóis, exemplares da cestaria de Angola e Madagascar, bastões cerimoniais dos Côkwe, objetos musicais adquiridos junto ao rei de Uganda, estatuetas religiosas antropomorfas e zoomorfas, exemplares de alaka (tecidos africanos feitos em tear e importados da costa ocidental para o Brasil). Destaca-se, por fim, o conjunto doado ao Museu Nacional por Celenia Pires Ferreira, missionária da Igreja Congregacional da cidade de Campina Grande, em 1936. A coleção era composta por objetos de uso doméstico e ritual, coletados pela missionária durante sua estadia no Planalto Central de Angola entre 1929 e 1935.
O núcleo de etnologia afro-brasileira documentava hábitos, crenças e técnicas de produção dos descendentes dos povos africanos no Brasil, bem como o histórico de violência da escravidão, a repressão religiosa e as formas de organização social das comunidades negras no período pós-abolição. A religiosidade afro-brasileira era o aspecto mais fartamente ilustrado no acervo. Grande parte dos objetos religiosos encontravam-se originalmente nos espaços conhecidos como zungus ou terreiros de candomblé, locais de culto dos inquices (Bantus)orixás (Iorubás) voduns (Jeje Mahi). Tais templos eram constantemente invadidos e tinham seus objetos confiscados e levados para os depósitos da polícia, como provas materiais da prática de rituais então proibidos. Por iniciativa do ex-diretor do museu, Ladislau Neto, esses objetos passaram a ser transferidos para a instituição, após o reconhecimento da importância histórica, sociológica e etnológica de tal acervo.
Um segundo importante conjunto de objetos no acervo de etnologia afro-abrasileira era proveniente da doação feita por Heloísa Alberto Torres, antropóloga e ex-diretora do Museu Nacional. Durante suas viagens à Bahia década de 1940, Heloísa adquiriu uma série de objetos nas principais casas de candomblé da região do Recôncavo, além de exemplares de artesanato, produção têxtil e da cultura popular, nomeadamente os orixás esculpidos em madeira por Afonso de Santa Isabel e as esculturas em cedro com pinturas a óleo adquiridas no Ateliê da Rua Taboão. O acervo ainda incluía peças feitas sob encomenda do próprio Museu Nacional, para figurarem na Sala de Etnografia Regional Brasileira, parte integrante da Exposição Permanente do Museu Nacional em 1949 (primeira mostra permanente de objetos e cultos afro-brasileiros, com o objetivo de apresentar as diferenças regionais da cultura nacional), como as bonecas de pano vestidas com trajes de orixás.


  Povo Iorubá. Máscara da sociedade secreta feminina Gelede, s.d.

 Trono do Reino do Daomé (século XVIII/XIX), ofertado a D. João VI pelo rei Adandozan

Boneca de pano com traje de orixá, feita para Exposição de Etnologia Regional de 1949

Povo Côkwe. Pente esculpido em madeira, s.d. 

Cultura afro-brasileira. Representações de Xangô e Bayani, s.d. 

      "Banquinho de igreja", assento para mulheres em casas de candomblé, s.d.

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